À Rosa

IInundações floridas de AmaltéiaProdigamente Clóri derramavaE líquida em rocio a sombra feiaNo fraudulento Bruto, o Sol brilhava:Quando entre tanta flor, que Abril semeia,Fidalgamente a rosa se adornava,Ostentando por garbo repetidoDe ouro o toucado, de âmbar o vestido.

IIEsta gala, que veste generosa,Deve aos cândidos pés da Deusa amante,E ficando no orvalho mais lustrosa,Deve estimar da Aurora o mal constante:De sorte que no prado fica a RosaCom desditas alheias arrogante,Pois quando se entroniza brilhadora,Sangue de Vênus tem, pranto de Aurora.

IIIQuando esse Deus de raios aparece,Agrado dando à vista, luz ao prado,A Deidade das flores amanhece,Ao prado dando luz, à vista agrado:E quando a Primavera resplandeceCom gala verde, e brilhador toucado,Fica sendo no adorno de verdoresJóia esta flor, e gargantilha as flores.

IVEm galharda altivez tanto se afina,Que vestida de púrpura fermosaAdulação se arroga de divina,Desprezando o primor de majestosa:Por Deidade do campo peregrinaNão lhe faltam perfumes de olorosa,E quando Deusa dos jardins e aclamo,Faz templo do rosal, altar do ramo.

VAve purpúrea no jardim lustrosoSoberbamente a considera o dia,As verdes ervas são ninho frondoso,Donde a fragrante adulação se cria:Se respira do alento o deleitoso,Se desprega da pompa a bizarria,Forma em tanta beleza, em olor tantoAs folhas asas, a fragrância canto.

VICom plácidos requebros assistidaDo Zéfiro fecundo a Rosa amada,Lhe dá lascivos beijos por querida,E vermelha se faz de envergonhada:Já se encalma com chama padecida,Já respira com ânsia suspirada,Oh como no jardim, quando se adoraSente Zéfiro amor, ciúmes Flora!

VIIComo Lua no Céu entre as estrelas,Campa fermosamente em resplandoresEntre as flores a Rosa, é Lua entre elas,Brilhando o prado, Céu; astros, as flores:Por vantagens se jacta horas mais belas,Nem se escondem c'o sol os seus primores,Se brilha a Lua; a Rosa vencer trataCom raios de rubi raios de prata.

VIIIMas ai, quão brevemente se asseguraA flor purpúrea no primor luzido!Que não logre isenções a fermosura!Que a morte de ũa flor rompa o vestido!Oh da Rosa gentil mortal ventura!Que logo morta está, quando há nascido,Sendo o toucado do infeliz tesouroEm berço de coral sepulcro de ouro.

IXSe vivifica a grã, se olor expira,Dando lisonja ao prado, ornato à fonte,No doce alento, e bela grã se admiraDe Sido inveja, emulação de Oronte:Mas se vento aromático respira,Mas se lhe pinta o luminoso EtonteDa cor a sombra, passa num momentoQual sombra a sombra, como vento, o vento.

XSe abre a Rosa pomposo nascimento,Se bebe a Rosa nacarada morte,Se foi Sol no purpúreo luzimento,Também se iguala Sol na breve sorte:Se o Sol nasce, e padece o fim violento;Nasce a Rosa, e padece o golpe forte,De sorte que por morta, e por luzenteNo Ocaso ocaso tem, no Oriente oriente.

XISe, Anarda, vibras na beleza ingrataRaios de esquiva, de fermosa raios,Adverte, adverte, que um rigor maltrataAdulação de Abris, primor de Maios:Ouve na flor, que desenganos trata,As mudas vozes dos gentis desmaios;Atente enfim teu néscio desvario,Que a fermosura é flor, o tempo Estio.

XIINão queiras, não, perder com cego enganoDessas flores, que logras, a riqueza,Vê pois que cada idade por teu danoÉ sucessivo Inverno da beleza:Aprende cedo, Anarda, o desenganoDesta ufana, já morta, gentileza,Não queiras, não, perder em teu desgostoDo Dezembro da idade o Abril do rosto.

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