Panegírico
Ao Excelentíssimo SenhorMarquês de Marialva,Conde de Cantanhede,no tempo que governavaas armas de Portugal
IAgora, Aquiles Lusitano, agora,Se tanto concedeis, se aspiro a tanto,Deponde um pouco a lança vencedora,Inclinai vossa fronte ao rude canto:Se minha veia vossa fama adora,Corra em Mavórcio, corra em sábio espanto,Cheia de glória, de Hipocrene cheia,No Mundo a fama, no discurso a veia.
II
Sua genealogia Donde descendem os Meneses
Vós, Ramo ilustre de ũa excelsa planta,Que em fecunda virtude enobrecida,Entre os Troncos mais altos se levanta,Grande na estirpe, no valor crescida:Tão nobre sempre, que em nobreza tanta,Com água não, com sangue foi nascida,Da Infanta heróica; dando em tempos muitosDe espadas folhas, de vitórias fruitos.
III
começou a ensaiar-se na guerra com o exercício da caça
Escassamente quinze Maios eram,Que abrem do tenro buço os resplandores,Quando logo no peito vos alteramGuerreira propensão vossos Maiores:Venatório exercício pretenderamVossos brios, se verdes superiores,Vendo em desejos de tratar escudosDe Cíntia agrados não, de Marte estudos.
IV
Correndo a cavalo
Quantas vezes o bruto generoso,Que em virtude do impulso soberanoAlterna as plantas gravemente airoso,Correndo Move a carreira loucamente ufano;a cavalo Seguia ao cervo, que de vós medroso,Asas lhe dava aos pés o próprio dano,De sorte que seguiu no mesmo alento,Não bruto ao bruto, porém vento ao vento.
VEntre os ócios da paz já valorosoOstentáveis, Senhor, ao mesmo instanteNo peito denodado, e gesto airoso,Alentado valor, belo semblante;De sorte pois, que em gênio belicoso,De sorte pois, que em gentileza amante,Unindo as prensas de ũa, e outra sorte,Éreis galhardo Heitor, Narciso forte.
VI
Sua mocidade, e prudência
Na manhã tenra da florida idade,Onde se ofusca a luz do entendimento,Com névoas de apetites a vontade,Com nuvens de loucura o pensamento:Na manhã tenra enfim a claridadeDa prudência mostráveis sempre atento,Qual dia belo, que em manhã celesteNão se orna nuvens, não; raios se veste.
VII
Sua ciência na mesma idade
Quando vosso primor alimentavaOs doutos partos do sutil juízo,Lusitânia feliz vos aclamava,Entre verde saber maduro siso:Sua ciência na Lusitania feliz vos admirava,Mesma idade Quando entre ostentações de sábio avisoFrutificava em prevenido abonoNa verde Primavera o rico Outono.
VIII
Restauração de Portugal, em que teve grandes parte o Senhor Marquês
Quando a Pátria sujeita se rendiaDo Castelhano Império à força crua,Oh como infelizmente se afligia,Fúnebre, triste, desmaiada, nua!Depois isenta da violência impia,Despindo as dores da tristeza suaamou-se no ardor de vossa espadaFestiva, alegre, valorosa, ornada.
IX
Ao mesmo
Descingindo da fronte belicosaAs verdes folhas da Arvore funesta,Dourando a nuvem d'ânsia lastimosa,O pranto serenou da mágoa infesta:Adornada escarlata generosa,Entre a voz popular da heróica festaJuntou, prevendo o forte, e fausto agouro,Na mão a espada, na cabeça o louro.
X
Ao mesmo
Roma já não se jacte por ufanaDe Cúrcio o arrojo, na lealdade pio,Não solenize já por soberanaDe Fábio a testa, de Marcelo o brio:Pois logra em vós a gente Lusitana,Pois em vós com mais crédito avalio,(Unindo três Heróis neste desvelo)Outro Cúrcio, outro Fábio, outro Marcelo.
XI
Seu casamento
Vendo o frecheiro Deus que valorosoVosso peito se opunha ao fogo ativo,Himeneu vos prendeu por amoroso,Cupido vos frechou por vingativo:Sendo vós igualmente amante airoso,Vós logrando igualmente esforço altivo,Se ornou no forte ardor, na doce chamaMavorte o Mirto, Citeréia a grama.
XII
À Senhora Marquesa de Marialva com que casou o Senhor Marquês
Diga este Amor aquela Aurora, aquelaDescendente do Herói, que em brio tantoBrilhando em seu valor invicta estrela,De Lisia glória foi, d'Africa espanto:Oh como agora se publica nela,Se a honestidade, se a beleza canto,Marialva por ilustre simpatiaÉ de virtudes mar, e Alva do dia!
XIII
General das armas contra o sítio de Elvas
Quando vos elegeu supremo Aluno(Elvas opressa) a Pátria vacilante,Entre Soldado Capitão, vos uno,O bastão nobre, a espada fulminante:Quando rios de sangue vê Netuno,Pareceu um purpúreo, outro arrogante,De Lísia o Reino, do Oceano o espelhoPor Arábia Feliz, por Mar Vermelho.
XIV
Ao mesmo
Campou de Lísia a Flor por renascida,Murchou a Flor de Ibéria por cortada;Aquela está no campo esclarecida,Esta fica no campo desmaiada,A campanha parece florescida,Sendo no duro Inverno maltratada:Porque tinta em correntes sanguinosasDe cravos se vestiu, se ornou de rosas.
XVOstentando no sítio heroicamente,Excessos de valor Cipião famoso,Ulisséia ficou Roma potente,O Tejo pareceu Tibre glorioso;E com tantos aplausos excelenteMostrastes por assombro generosoNa sorte alegre, no valor impioModesto o coração, prudente o brio.
XVI
El-rei D. Afonso VI lhe dá o títilo de Marquês
Marquês vos honra o generoso Atlante,Se do Céu não, da Lusitana terra,Sexto Afonso, que em armas fulminanteFez invicto o valor na justa guerra:Não foi por desempenho, porque amantePagara o esforço, que esse braço encerra,Se Afonso fora no valor profundoNão Rei de um Reino, não; Senhor de um Mundo.
XVII
Passando ao Alantejo com segundo exército, no tempo em que era governador das armas D. Sancho Manuel
Depois seguramente conduzindoContra o Príncipe Austríaco insolenteExército segundo, persuadindoCom muda discrição, voz eloqüente:Com a Deidade Estrimônia competindo,Do Tejo abristes o cristal corrente;Jacta-se já, pois logra em seu festejoSe Netuno o Oceano, Marte o Tejo.
XVIII
Vitória do Cano, que hoje se chama de Ameixal
Na campanha do Ibero mal seguraVosso nome altamente publicado,Ambos vencestes a batalha dura,Sancho guerreiro então, vós respeitado:Com vosso nome a palma se asseguraSomente pelas vozes de afamado,Quando Lísia aclamou glórias ufanas,Sendo Sancho Aníbal, o Cano Canas.
XIX
Governador das armas do Partido do Alantejo. Vitória da praça de Valença
Outra vez com esforço verdadeiroNo Transtagano império obedecido,Mostrastes na Província ânimo inteiro,Quando dela tivestes o Partido:Vitória Valente o peito foi, no ardor guerreiro,Alcançando a vitória esclarecido,(Valença o sabe) que em igual conceitoValença a Praça foi, valente o peito.
XX
Vitória última de Montes Claros
Diga Lísia também a Palma nobre,Última empresa, da Mavórcia HistóriaDa fama devedora aplausos cobreQuando a fama por vós alcança a glória;O nome venturoso o sítio dobreDe Montes Claros na feliz vitória,Que são da Parca, e Marte os golpes rarosNos corpos Montes, nas façanhas Claros.
XXI
Princípio da batalha, em que os Castelhanos se imaginaram vencedores
Cedendo o peito à força sucessiva,Sendo opresso do Ibero o Lusitano,Retrocede, que a sorte compassivaQuis dar um troféu breve ao Castelhano:Nos bronzes logo o fero ardor se aviva,E nos ferros se esgrime o brio ufano,Armam-se os Lusos mais que duros cerrosCom bronzes bronzes, e com ferros ferros.
XXII
Alenta-se a batalha por parte dos Portugueses
Qual Deidade da Esfera luminosaEntre vapores pérfidos, consenteQue um pouco ofusque a névoa tenebrosaAs lisonjas gentis da luz ardente:Porém depois, os golpes da lustrosaVingança a névoa desmaiada sente,Vibrando o Sol em férvido desmaioLuz a luz, chama a chama, raio a raio.
XXIII
Alcança-se a vitória
Tal o luso valor, que Sol se apura,Consente entre escondidos ardimentosQue do Ibero conflito a névoa impuraOfusque de seu brio os luzimentos:Porém depois na bélica venturaCastigando nublados pensamentosCom luzidas façanhas, vibram logoBala a bala, aço a aço, fogo a fogo.
XIV
Posto no monte O Senhor Marquês
Vós posto na eminência agigantada,Que rouba os raios do medroso Etonte,Não já de louro vossa fronte ornada,Ornada sim de estrelas vossa fronte:Subis ao Céu na glória celebrada,Sois assombro guerreiro do Horizonte,Com que o monte por ũa, e outra parteFica Atlante do Céu, templo de Marte.
XV
Sua estância no campo em tempo de Inverno
Quando na Aula celeste visitavaO louro amante do Peneu LouroAo Troiano gentil, que a Jove davaDo Néctar o licor em mesas d'ouro:Entre o nevado horror, que o Céu vibravaPronto no campo, intrépido ao pelouro,Repousáveis porém com braço feito,Sendo a neve colchões, as armas leito.
XXVI
Sua estância no campo em tempo do Estio
Quando entre obstinações do ardor nocivoLatindo nesse Pólo o Cão luzente,Vomita em grave horror o fogo esquivo,Abre na boca adusta o círio ardente:Vosso peito também no esforço vivoFomentava os ardores de valente,Ambos ardendo, um de outro satisfeito,Na calma o círio, no valor o peito.
XXVII
Comparação com a Águia mais avantajado
Qual Águia ilustre, que do Sol os raios,Sendo de altivas plumas adornada,Sem maltratar-se à luz, sem ter desmaios,Bebe constante, opõe-se remontada:Águia Vós remontado em bélicos ensaiosVendo raios de Marte na estacada,Águia sois, e subis com mais instinto,Ela ao Planeta quarto, vós ao quinto.
XXVIII
Comparação de Júpiter contra os Castelhanos
Se fulminais ousado, forte, e ledoContra Iberos Gigantes a pujança,Oh que estrago! Oh que lástima! Oh que medo!Quando a espada tratais, brandis a lança:Mui cedo pelejais venceis mais cedoO Transtagano ardor Flegra se alcança,Vendo Iberos Gigantes, senão erro,Por Júpiter a vós, por raio o ferro.
XXIX
Sua constância no bom, ou mal sucesso
Qual firme escolho, que no mar resisteAo cristalino impulso, que discorre,Ou quando o mar com crespa fúria insiste,Ou quando o mar com terso aljôfar corre:Assim também quando a borrasca assiste,Assim também quando a bonança ocorre,Já do bem, já do mal; ao mesmo instanteConstante sois no bem, no mal constante.
XXX
Alusão de seu valor no tremor da terra, e das bandeiras
Se espedaçando escudo, arnês, e malhaChovem globos em pólvora incendidos,E se arvoram bandeiras na Batalha,Os Castelhanos fortes já vencidos;Não fazem globos, que Vulcano espalha, terra, e dasNão fazem ventos nos troféus movidos,Faz somente o valor, que em vós se encerra,As bandeiras tremer, tremer a terra.
XXXI
Comparação de sua espada
Qual ârion de estrelas matizado,Para que com cristais ao Mundo ofenda,Da procelosa espada nasce armado,Luminosa no Céu, no mar tremenda:Tal vós com vossa espada denodadoFazeis de estragos tempestade horrenda,Se bem com mais terror, que em glória nossaÁgua esperdiça aquela, e sangue a vossa.
XXXII
Breve elogio de suas virtudes
Em vosso peito habitam finalmenteTodas as prendas do primor glorioso,Se não sois mil Heróis, Conde excelente,Sereis por vezes mil Herói famoso:Lograis bélico ardil, voz eloqüente,Prudente discrição, valor ditoso,Severo agrado, sangue esclarecido,Amado no temor, no amor temido.
XXXIII
Suas ações eternizadas, e seu retrato temido por elas
Sendo vós exemplar da humana glória,Sendo do Luso Império forte amparo,Para eterno papel de vessa históriaBronzes Corinto dê, mármores Paro:Vós esculpido na fatal vitória,Vós retratado no conflito raro;Metam medo aos remotos, aos vizinhos,Lenhos na imagem, no retrato linhos.
XXXIV
Sua fama do Oriente até o Poente
Cesse a Musa, senhor, retumbe a fama,Destempere-se a Lira, entoe a Trompa,Que quando o Plectro humilde vos aclama,É bem que a tuba o Plectro me interrompa:Se vosso esforço como Sol se afama,Dos Gigantes a filha os ares rompa,Donde se veste esse Planeta louroMantilhas de rubi, mortalhas de ouro.
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