O Bardo na Solidão
A Esperança Vol. I
Sentado a meditar sobre um rochedo,Inda joven o Bardo suspirava,Macilentas as faces e encovadosOs bellos olhos tinha que n'outr'oraRevelaram d'amor paixão mui terna.De repente expressão feroz, medonha,Ao rosto lhe assomou tornando-o rubroE momentos após, sorriso ironico,Sorriso indecifravel e terrivelQue d'alma traduzia o fel, angustia,Nos labios resequidos se mostrava!Ergue-se o mal-fadado e frias gotasDa fronte lhe dimanam incendida,Vagueando ora aqui, alli errante,A descançar o forçam dor, fadiga!D'um passado feliz reminiscencias,O rosto lhe humedecem d'agro pranto;Tomando então a lyra luctuosa,Aos ventos solta em vão as queixas suas.
Bardo
Ah! bem cedo exp'rimenteiD'este mundo o vil engano;Bem cedo traguei o felDas paixões no desengano!..
Sim; nasci para o martyrio,Para chorar e soffrer,E sem 'sp'rança de conforto,Talvez sceptico morrer!..
A fé, venturas, amor,O mundo roubou d'est'alma,Tirou-lhe os gozos da vidaE até da gloria a palma!..
Eu era bom, innocente,Cria nos homens e em Deus,Cria em amor e venturaE lhes dava affectos meus;
Mas dos homens a maldade,O egoismo, a traição,Accenderam da vingançaO fogo no coração!
Pediu um crime, outro crime;Paguei affronta co' affrontaE cravei n'um peito indino,D'um punhal aguda ponta!..
Horrida sombra me segue!Sombra de perseguição;Quer commigo repartirEterna condemnação!..
Vai, ó reproba, cumprirN'esse inferno a maldiçãoQue te deitou, moribundo,Um misero n'afflição!..
Ah! de meus progenitoresFoste a desgraça, o tormento;Vai! e que entre os condemnadosNão tenhas paz um momento!
Tu foste da minha OlindaO cruel, vil roubador;Tiraste-me mais que a vidaLevando-me o meu amor!..
Assassinaste meu pae!Minha mãe morreu de dor!E para os vingar, ousado,Fugi longe ao teu furor!
Familia, amor, riquezas,Tudo, cruel, me usurpaste;Quanto à vida me prendia,Homem traidor, me roubaste!
Disfarçado em pobre mongeOs passos teus vigiava,E da vingança o momentoOpportuno eu esperava.
Esse instante alfim chegou;O disfarce meu deixei,E qual tigre enfurecido,Minha raiva em ti cevei!
Logo após fugi dos homens,Deixando um mundo perverso,E só, entre a natureza,Vivo em magoas submerso!..
E n'um virente cedro magestoso,O joven triste, a lyra pendurou,E de gemer cançado, sobre a relva,Ao somno por instantes s'entregou.
E nas feições do Bardo adormecidoNotava-se alma paz, meigo sorriso;Era sonho fagueiro, mentirosoQue a mente lhe encantava d'improviso.
Levanta-se dormindo, e contra o seio,Imagina estreitar alguem que amou;Tal impressão sentiu mesmo sonhandoQue exultando d'amor, logo acordou.
Na solidão, alem os olhos lança.A visão já buscando, o amor, a vida;Quer ao sonho dar fé, quer illudir-seE foi n'alma uma esp'rança inda nutrida.
Bardo
Oh! quem morrèra sonhandoUm sonho tão venturoso;Embora fosse illusão,Mas era um sonhar ditoso!...
Só idéas pavorosas,Lembranças amarguradas,Ha muito que nem dormindoSonhava glorias passadas!
Ah! bem hajas sonho amigoQue assim vieste afagarQuem nas solidões da terraVive só para chorar!
Sonhei-a triste nos bosques,Solitaria a suspirar;Tão pallida, emmagrecida,Como a quizera encontrar:
Qual a rosa delicadaQue em aureo vaso nasceu,Mudada para o desertoEmmurchece, a côr perdeu.
Lindas, galas que na corteSuas graças realçaram,Em negro manto, sem arte,Nas solidões se mudaram!
Como assim era formosa!Como est'alma inda encantou!Cercada outr'ora de faustoMais amor não lhe inspirou!...
Se dos seus lindos cabellosA côr tivesse mudado,Se a saudade a envelhecera,Muito mais a houvera amado!
Mas as faces macilentas,Os olhos já encovados,Traduzem do coraçãoOs dias amargurados!
Brando somno, em tuas azasAcolhe o triste amador,Deixa que morra sonhandoNos braços do seu amor!
Meigos sonhos feiticeiros,Dai-me de novo a visão,Dizei-me onde Olinda vive,E se por mim tem paixão;
Dizei-me se de saudadesElla vive, a suspirar,Ou se já no ceu fulguraDos puros anjos a par;
Ah! dizei se outro mortalTambem foi por ella amado,Ou se, fiel aos seus votos,Jámais me tem olvidado.
Era na hora em que o sol formosos raiosNo seio do oceano hia esconder;Era silencio tudo, só se viaNas solidões o Bardo a percorrer;
E no sonho feliz inda scismando,Longo tempo ao acaso caminhou,E no mais ermo sitio das montanhasCo'um venerando er'mita deparou
Curvado tinha o suplice joelho,Tinha os olhos no céo, em oração,Com lagrimas e ais a Deus pedindoD'enormes crimes paternal perdão.
Cilicio duro a cinta lhe cingia,Era a terra seu leito, e recostavaEm riga pedra a fronte calva e nua,Eram os céos o tecto que o guardava!
Comia duro pão, mal saborosoE no ribeiro enchia a bilha d'aguaPara a sede febril refrigerarDa penitencia em meio d'essa fragua!
D'estio o sol em aridos rochedos,D'inverno a tempestade desabrida,Acolher-se não fazem ao er'mita,A mesquinha choupana, a uma guarida!
Finda a longa oração e quer erguer-se;Mas em vão o tentou mais que uma vez;As forças já exhaustas lhes fallecem,Do moribundo tinha a pallidez.
No coração do Bardo não entráraHa muito de piedade um sentimento;Mas ao ver espectac'lo tão pungente,Sentiu enternecer-se n'um momento;
E junto ao ancião presta-lhe auxilio,Ajudando-o na rocha a recostarE o velho agradecido lhe pediuPara a seu lado um pouco descançar.
Eremita
Mancebo, que revez, que caso estranho,A um ermo te guiou entre os abrolhos?!Dous lustros são passados, sem jámaisAqui mortal algum verem meus olhos!
Ah! talvez te guiasse a providencia,Para affagares o ultimo momentoD'aquelle que mer'ceu por crime enorme,Vida d'expiação e de tormento!..
Eis do mortal o instante mais solemne!...Da eternidade á beira eis-me chegado!...Sinto necessidade de conforto,D'ouvir de puros labios innocentes/Dizer-me: eu te perdo-o ah! morre em paz!Os ministros de Deus, d'aqui são longe;Que importa? pódes tu tambem como elles,D'um peccador ouvir a confissão;Talvez inda mais pura essa tu'almaop Possa em nome do céo já absolver-me...E não fujas ó joven quando ouvires doDe meus erimes a historia pavorosa!Lembre-te que a oração, jejuns, cilicios,A Deus tenham talvez apaziguado...
E nos olhos do bardo duas lagrimasBrilharam ao clarão da argentia lua,E commovido já o er'mita alfaga,Entre as mãos l'estreitando a dextra sua.
Bardo
Ancião, mitiga a dòr narrando a historia,D'essa vida d'outr'ora criminosa;Não me fará tremer; tenho provadoDos homens a maldade, o vil engano!Victima d'ambições e de seus crimes,Vive vida de magoa n'este exilio;Odeio-os e seu halito pestiferoA seu lado aspirar jamais eu quere!E que terá no mundo que buscarQuem parentes, amor, patria perdeu ?
Eremita
Joven, se és desgraçado, melhor pódesTambem d'um desgraçado apiedar-te!A vida se me esvae!... ouve-me, ó filho:― Era em tempo, em que os francos opprimidos,Gemiam sem fruirem liberdade;Mas eu, senhor feudal, fazia parteD'oppressores que a patria 'scravisavam;De nobresa ostentando um futil tituloE do rei o favor gosando ufano,Orgulhoso, egoista, não soffriaQue fosse mais que eu, outro exaltado:Votei odio, inveja ao cavalheiroMais nobre, denodado e virtuoso,Tecendo-lhe a mais vil, atroz calumnia!E do rei a má indole accendendo,Contra o triste o tornei enfurecido:Foi preso o desgraçado e condemnadoA' existencia fruir longe da patria,Sendo-lhe bens, thesouros confiscados!Mas est'alma feroz, implacavel,Contente inda não 'stava co'a má sorteQue sobre esse innocente já pesavaE temendo que um dia a sã verdade,Altiva se mostrasse contra mim,Uma idéa infernal passou na menteQue o coração perverso não baniu,E das trevas o Genio vendo entrada.N'um 'spirito d'inveja como o d'elle,Armou-me d'um punhal a dextra infame,E a vida, que tirar a Deus só cabe,Eu a extingui ao triste, sem piedade!...
Que! mancebo! recuas aterrado?!...Meus crimes inda aqui não fazem termo!...
E o Bardo empallidece, treme, fixaO velho que elle afasta horrorisadoE não sabe se dorme, vela, ou sonha,Ou se vive sem tino, delirado..
Eremita
Ficou do mal-faldado um gentil filho,Que herdou do nobre pae altas virtudes,Que de saudade em breve viu finar-seA mãe mais carinhosa e desgraçada,Da qual assassinei o esposo caro!...(Triste do que encetou do crime a estradaQue ao crime se habitua e cala n'almaEssa voz da consciencia que não ouve!)Ao mancebo infeliz nova desgraçaA minha crueldade preparava!D'um cortesão a filha bella e ricaPara esposa lhe estava destinada;Mas eu que por orgulho a ambicionava,O monarcha empenhei para obtel-aE o cortezão gostoso cumpriu logoDesejos que o seu rei manifestava.Chama a candida filha e faz saber-lheDo sob'rano os projectos vantajosos...
Bardo
Basta! sombra maldita! não prosigas,Não mais surjas do inferno a perseguir-me!Assás da vida minha sei a historia,Não venhas do sepulchro repetir-m'a,Não venhas aggravar profunda chagaQue incuravel abriste na minh'alma!..Ah! foge sombra errante, pavorosa,D'esse que assassinou, marquez infame!Meu desditoso pae, o conde Alfredo!...
E convulso o ancião ao céo os olhosLevanta, erguendo as mãos agradecidoE eurvando-se, as plantas quer beijarDo Bardo mui irado, enfurecido.
Eremita
Piedade, Sabino! ah! piedadePara o homem contricto e desgraçado!Piedade ao peceador que vida austéraHa longo tempo busca n'estes ermos!Fui teu perseguidor, fui teu flagello,iRoubei-te o que mais caro te era á vida!Emmureheci dos annos teus a flôr,Quebrei o teu encanto escurecendoA estrella que ditosa te sorria!Teu triste coração dilacerei,Roubando-lhe os affectos mais queridos,Deixando em seu logar o fel d'angustialAh! não fujas, Sabino! ao moribundoO teu perdão vem dar-lhe generoso!Vem; não é sombra vã que t'o supplica;E' o homem que afastado longo tempoDos caminhos do céo, errava longe!...Aquelle que peccou, porque era um homem!..Escravo das paixões, fragil mortal,No bulicio do mundo, entre grandezas,Sem outro guia mais que a vil lisonjaExercida por vis aduladoresQue o peito juvenil lhe corromperam,Nas orgias seu ouro descipando,Conseguindo banir d'esta minh'almaOs germens da virtude, honra, deveres!Dotado de valor, brios, coragem,Cumpria-te vingar tão vis affrontasE no dia aprasado em que deviaAnte as aras Olinda desposar-me,Este seio feriste criminoso,Deixando-o mal ferido, mas não tantoQue á merecida morte succumbisse.Ah! pensaste talvez que esse consorcioSe tinha consummado n'esse dia!..
Eremita
Quando a febre e delirio me deixaram,Teu destino indaguei; porém debalde:Anhelava prostrar-me ás tuas plantas,O teu perdão humilde supplicar-te,Dizer-te: ― esse marquez feroz, altivo,Mais que a sombra não é, do que já fora;E que d'Olinda á mão renunciavamPara ver-te a seu lado venturoso; pMas já perdida a esp'rança d'encontrar-te,Um mundo abandonei que me perdèra...Onde me fiz perverso, onde deixáraUm puro coração, honra e virtude!..Approuve ao céo benigno que eu vivessePara expiar os meus crimes enormes!Recordar um passado só d'horrores,Supportando o remorso despiedado,O filho inflexivel da conscienciaQue injustiças não cala, não perdoa!..Vivi para soffrer, qual condemnado!..Agora, o coração diz-me que o céo,Do penitente humilde se apiedáraEssa sombra, que outr'ora, ensanguentada,Terrivel me seguia em toda a parte,Cessou de me apparecer e apaziguada,Talvez já me perdoa generosa...O' Providencia! quanto eu te bem digo!Sim; Deus é sempre bom, grande e potente!..Não 'squece o peccador n'essa hora estrema!E a mim te conduziu, pendido ao tumulo,Qual anjo, o meu perdão annunciando!Ah! eu tive na infancia santas crenças,Amava o Creador dos céos, do mundo,Tinha fé que o meu anjo me guardavaE em sonhos eu o via muitas vezesEmquanto que era joven, virtuoso;Mas logo na minh'alma a crueldadeCrescia mais e mais que do meu anjo,Em breve m'esqueci, qual renegado!Aile elle espavorido abandonou-meNa carreira de crimes horrorosos,Té que visse indomavel perseguir-meO remorso cruel, de noite e dia!Talvez o meu martyrio o apiedasseQue em sonhos me sorriu já, como outr'oraQuando dormia, a noite derradeira;O céo em meu favor elle chamouE a minha converção foi obra sua.
Sabino!.. o teu perdão... eu desfalleço...Perdoa! como Christo perdoavaAs injurias mais vis e atroz tormento!Teu coração verás tranquillisar-se,D'alma paz as venturas desfructando!...
E no seio do Bardo começavaDo céo divina luz a scintillar,Banindo-lhe o rancor, odio, vingança,Compassivo o movia a perdoar.
Bardo
E que destino déste à minha Olinda?Que fizeste cruel da malfadada?..Ah! do seu coração inteira posse,Na terra eu só gosava e ninguem mais!
Era a luz d'esta vida, o meu amparo,Era o meu universo, o céo, a gloria!Sem ella fiquei só, qual massa inerte,Ao acaso, no mundo vagueando!..
Eremita
A sorte como tu d'Olinda ignoro:Quando do pae ouviu ordens indinas,Quando por elle viu tão mal cumpridaA palavra d'um nobre cavalleiroE d'honra fementidas as promessas,Representa-lhe humilde e com branduraA infamia a que seu nome alto s'espunha;Porém o pae irado e inflexivel,A donzella repete ordens crucis,Forçando-a a ob'decer, seguir seu mando.De noiva ricas galas the prepáraE adereços luzidos d'alto preço;Com arte e gosto adornam-se aureas sallasPreparam-se festins, grandes fulgares;Na capella os brandões já refulgiam,E de Deus o ministro, ante os altares,O momento aguardava de formarP'hymeneo, a sagrado laço puro;Porém, faltava Olinda, onde está ella?!Em vão na estancia sua a buscam todos,Buscaram-na de balde em toda a parte!..Então a compaixão, remorso e magoasSenti no coração a yez primeiraE em lagrimas e ais me arrependiaDos males que perverso originára!O que então se passon dentro em minh'alma,Difinil-o não sei!,, só o sentia...Horrores que o inferno aos condemnados,Terrivel the prepára enfurecido,No peito angustiado eu os soffria!...Livre-te o céo, ó Bardo de sentiresO remorso cruel, o meu martyrio!...
E já d'aurora as lagrimas se uniamA's do velho contricto, moribundoQue do Bardo o perdão só anhelava,Por derradeira graça cá no mundo.O mancebo se prostra e commovidoErgue os olhos ao céo, vai perdoar,Não sente já furor, odio, vingançaE junto do eremita foi orar.
Eremita
Ah! que pura alegria eu sinto, ó filho!Dos labios teus o meu perdão ouvindo!Cumpridos são, Sabino, os meus desejos,Da terra nada mais ambiciono!Mensageiro de paz, fizeste n'almaDe Paraiso a esp'rança renascer;Os passos teus aqui guiou o Eterno,Para me assegurar da gloria a palma!..O' Deus incomprehensive!! teus arcanos,Não é dado aos mortaes fracos sondarem!..Sabino. . Adeus... eu sinto já da vidaAbandonar-me e extinguir-se o sopro!..Ah! roga a Deus por mim, que lá nos céus,Attendidas serão as preces tuas...E o grande peccador tão criminoso,Após austéra vida penitente,Qual justo feneceu, arrependido,Tendo o seu Deus, a fé sempre na mente,
Ah! o Bardo scismando pensa aindaQue um sonho fora tudo, uma illusão;E como acreditar que o seu tyrannoHouvesse d'estreitar ao coração!..
Como ver-lhe pendida a fronte exhaustaSobre o peito que outr'ora enfurecido,Contra elle nutriu odio, vingança!E dar-lhe hoje o perdão, enternecido!
Curva-se em oração n'esse logar,Pelas lagrimas já santificado
E pede a Deus, do er'mita a contrição,Depois de ter ao céo, por elle orado;
E cava a sepultura a quem a sua,Na idade juvenil cavou sem dó,Olha por derradeiro o corpo exangueQue em breve só será do nada o pó!..
Quer depois arvorar na pobre campaA efigie d'essa cruz da redempção;Mas não vê nas montanhas de que fórme,Venerando signal d'agra paixão;
Atravessa desertos, desce montes,Transpõe formoso rio cristalinoE além n'um denso bosque verdejante,Cruz singela formou d'um lenho fino.
Em quanto repousava os lassos membros,Eis que escuta uma voz tão magoada,E tão lugubre, debil e queixosa,Qual a d'Hero expirante, desgraçada!
E ouvindo-a estremece e o coraçãoNo peito juvenil forte pulsára;Immovel fica o Bardo, commovidoPela voz tão saudosa que escutava;
Por suspiros e pranto entrecortadaEssa voz su'alma compungiaE tão só, sem amparo, por est'arte,No silencio dos bosques s'exprimia:
«E'sta vida de saudade,«De pranto e amargura,Em breve s'extinguiráEntre o pó da sepultura!..
Matizar de novo os prados,Ah! talvez jamais vereiE das folhas ao pender,No sepulchro cahirei!
O coração já não pódeSoffrer a triste saudadeE breve virão as horasSolemnes da eternidade!...
E na minha pobre campa,Nenhum mortal chorará,Onde jaz uma infeliz,Ao meu amor quem dirá!..
Contai-lhe vós ternas aves,Zefiros, flores dos pradosBosques, rios e montanhas,Os meus dias desgraçados!
Dizei-lhe que fementido,Jamais foi meu coração,E que vim na soledadeNutrir d'amor a paixão;
Que fiel ás juras minhas,Recusei outra uniãoQue preferi á grandezaTristezas da solidão;
Mostrai-lhe depois a campaOnde eu dormir somno eterno.Que uma lagrima ahi vertaQue exhale um suspiro terno!
Das amigas a mais terna,Leonor, já não existe!Minha fiel companheiraQue à solidão me seguiste;
E'ras tu só meu amparo,Quem minha dor mitigava,Quem d'esta triste existencia,Com desvelos mil cuidava:
Nos braços, teus pequenina,Quantas vezes m'embalaste,Na falta d'uma mãe terna,Tu foste que me educaste.
Quando o fado a mão pesadaSobre mim descarregou,Dos dias teus a venturaPara sempre envenenou!
Sósinha não me deixastePelo mundo divagarE longe do lar paternoMe vieste acompanhar.
Tão velozes como os ventos,Dous ginetes cavalgamos,Por fiel pagem guiadas,Muitos dias caminhamos.
Sempre boa, generosa,Por mim tudo abandonasteTeu ouro, ricas alfaias,Commigo aqui dissipaste.
Isolada, sem conforto,Minha dor não vencereiE comtigo ó doce amigaEm breve me juntareil..
Nas leves azas dos ventosAo meu bem por que não vãoOs derradeiros suspirosQue partem do coração!..
Sabino! por que não vensMitigar a minha dor,Para que morra ditosaNos braços do meu amor!
Não mais o bardo espera e após instantesA amante sua estreita ao coração;Sem dar fé ao que vê, julga que sonha,Ou crê ser um delirio da paixão.
Em silencio se olharam por momentos,Nos olhos tendo d'alma as expressõesQue phrazes são inuteis quando amorEm contacto colloca os corações!
Mas em breve do Bardo essa venturaEm pranto se mudou e agonia,D'Olinda a pallidez, signaes de morteNo rosto seu exhausto elle só via!
Bardo
Universo, ah! que és tu se não a taçaPara o pranto sorver do triste humano!..E tu que és mais que dôr, ó existenciaQue mais és que martyrio e soffrimento?!Sobre a terra não há felicidade!Fantastica deidade, é nome vão!É mentida tambem fogueira esp'rança.Que venturas promette que não servemMais que para illudir a triste vida,Depois attroz, fatal, o desenganoN'um abysmo de dôr nos lança afflictos!..
E o semblante da virgem sobre o peito,Co'a pallidez, da morte lhe pendiaE do Bardo infeliz, sentido prantoNas faces da donzella já corria.
Bardo
Vive, ó minha Olinda! vive ou levaComtigo o teu amante á sepultura,Soffrendo mil saudades, não o deixesSósinho, sem amparo sobre o mundo!O meu céo, vida, luz, eras só tu!A estrella que na terra me guiou,O sol que o coração m'incendiavaCom os celestes raios de teus olhos!A aurora que espargia na minh'almaPerfumes que aspirava ébrio de gozo!..A existencia fruir sem ti não posso!Ligadas por amor as vidas nossasQue extingua a morte crua d'um só córte?..
Olinda inda respira e os olhos erguePara o terno amador que delirante,Caricias mil lhe faz, um beijo imprimeNos labios que sorrir-lhe vê um instante.
Olinda
Sabino! enchuga o pranto, não lamentesQuem nos teus braços morre tão ditosa!O Creador ouviu as preces minhas,
Conduzindo-te aqui n'est'hora extrema!Como os anjos no céo amam a Deus,Amei-te eu, ó Sabino, cá na terra!De saudades vivi longe de ti,A vida d'um passado só nutrindoQue me fôra tão caro, tão ditoso!..Jámais volveu um dia, hora, ou instanteQue de ti se olvidasse a tua amante!Meditando ao luar, ai, quantas vezesA abobada celeste contemplava,As estrellas olhando uma por uma,Para vêr se atinava com aquellaQue teus olhos formosos estremassem!Outras vezes na lua reflectidoTeu rosto figurava meigo e lindo;Quando o sol despontava, eu lhe dizia:–Como outr'ora não és já tão formoso!Nos raios teus não vejo tanto brilho;A presença d'amôr é quem te doira,É elle que abrilhanta a natureza,Quem lhe realça em fim as mil bellezasDe refulgir deixaste para mimQuando do meu amor me separaramEsses Fados crueis que me perseguem!..
E a virgem mais e mais empallidesceA morte despiedada vê chegarE na gelida dextra a dextra amada,Pela ultima vez quer estreitar.
Olinda
Viviremos nos ceus eternamenteJá que fomos na terra separadosJá que nos condemnou a cruel sorteA viver vida triste de saudade!A existencia s'esvae... eu morro, ó Bardo!..Acolhe os meus suspiros derradeiros!..O meu ultimo adeus!.. esta minh'alma...
E do amante a fronte unindo-a ao seio,Inda uma vez contempla a suspirar,Fitando-a com meiguice, até dos olhosO derradeiro lume se apagar!
Cançado de soffrer o triste BardoTão forte dôr não póde já vencerE unindo ao coração a extincta amanteSe deixa alli com ella fenecer.
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