O Amor da Patria
Poesias offerecidas ás senhoras Portuenses
Com as vestes bumildes da ovelhinhaAlgum tempo o leio se revestiu;Mas sua condição feroz, altiva,Em breve seu disfaree desmentiu.
Ergue no throno seu a fronte altivo,Esse, que hoje da França o povo rége,E sobranceiro os olhos ás naçõesLança sem que a ventura lhes deseje!..
Em quanto de monarcha as regalias,Das grandezas no meio, attivo goza,,De Bourbon a familia desthronadaCarpe a patria, e o solio desditósa!
Do seu destino ufano, a força bruta,Qual barbaro, por lei conhece só;Brios, honra, dever, tudo olvidando,Quebra d'uma aliança o santo nó!!
Offuscando a verdade, acha pretextoD'affrontar um monarcha, um povo inteiro,'Squéce, que esse monarcha é Rei dos Luzos!Que d'antiga progenie é o herdeiro!
Que longe de temer cruel remorso,O throne, que é tão seu, affoilo trilha ;Ninguem sonha seus dias encurlar,Entre um povo fiel governa, e brilha.
Ao ver desacatada a patria minha,No peito o coração pulsou mais forte,Senti, que me girava inda na veiasEsse sangue d'Héroes d'altivo pórte!
De meditar cançado adormeci;Eis, que do pó, das cinzas resurgindo,Em sonhos vi os Castros, e Albuquerques,Um apóz outro a mim se dirigindo;
Depois Fuas, Martins, e outros HéroesCom medonho estampido, das espadasMui rapidos tiraram n'um só tempo,Conservando-as na dextra levantadas.
«Mancebo, (disse o Castro a fronte erguendo)«Os manes, que aqui vês, não terão paz,«Em quanto a affronta vil tu não vingares:«Vae; — e os brios d'outr'ora appar'cer faz!»
A espada me cingiu, c a cruz no peito,De nobre cavalleiro me pregou,E depois denodado, a combaterPelo rei, pela patria, m'exhortou:
«Não temas pois (me diz) esse gigante,«Como elle outros gigantes já cahiram,«Roma altiva cahiu, e Macedonia,«Troia, Thebas, Carthago succumbiram.
«Finou-se Bonaparte em Santa Helena,«Querendo o mundo inteiro assoberbar;«Soffre terrivel córte cedo ou tarde«Quem das gentes o d'reito desprezar:
«Se a patria a seguir-te recusar,«Toma este punhal! Vinga tu só,«Honra, brios, e d'reitos da nação,«Da vida o sacrificio dá-lhe em pró!»
Tal impressão me fez o sonho estranho,Que a executal-o já me resolvia!Lancei mão do punhal, terçado, e arnez,E ébrio d'enthusiasmo já partia!
Deixando pae, e mãe, amante, amigos,Affastava-me já do lar paterno,A todos occultando o meu segredo,No coração lhes dava adeos eterno!..
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Caminhando um pouco ávante,Vi d'um templo, que sahiaFormosa, gentil donzella,Que p'ra mim se dirigia;
Vinha d'orar ao Senhor,Na missa da madrugada,Tão pura, tão fresca, e bella,Como a rosa inda orvalhada.
«Onde vás (ella me diz)«Cavalheiro desposado,«Onde vás tão cedo ainda,«Por est'arte preparado?!
«Sem ao menos um adeos«A' tua Eliza dizer,«Onde ias tu, cavalleiro,«Que irias álém fazer?..
«Sonhei, que arriscada empreza«Sombras d'Héroes le lembraram,«Que para a Patria vingares,«A amante, e noiva olvidaram !
«Mal nos Ceos raiou a Aurora,«Fui por ti a Deos orar,.«Para o meu sonho terrível«Nunca vêr realisar!
«Detem-te, ó gran cavalleiro!«Meu desposado, meu bem!«De ti já não és senhor,«Não prosigas mais álém.»
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Suffocou tão alta empreza,A pod'rosa voz d'amor;Mas da Patria pela offensaInda n'alma sindo a dor!..
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