A Idéa

Odes modernas (1875) — Livro Primeiro

I

Pois que os deuses antigos e os antigosDivinos sonhos por esse ar se somem,E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen,A apagaram os ventos inimigos;

Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos,Seccos á mingua de agua, se consomem,E os prophetas d'outrora todos dormemEsquecidos, em terra sem abrigos;

Pois que o céo se fechou e já não desceNa escada de Jacob (na de Jesus!)Um só anjo, que acceite a nossa prece;

É que o lyrio da Fé já não renasce:Deus tapou com a mão a sua luzE ante os homens velou a sua face!

II

Pallido Christo, oh conductor divino!A custo agora a tua mão tão doceIncerta nos conduz, como se fosseTeu grande coração perdendo o tino…

A palavra sagrada do DestinoNa bocca dos oraculos seccou-se:A luz da sarça ardente dissipou-seAnte os olhos do vago peregrino!

Ante os olhos dos homens—porque o mundoDesprendido rolou das mãos de Deus,Como uma cruz das mãos d'um moribundo!

Porque já se não lê seu nome escritoEntre os astros… e os astros, como atheus,Já não querem mais lei que o infinito!

III

Força é pois ir buscar outro caminho!Lançar o arco de outra nova pontePor onde a alma passe—e um alto monteAonde se abre á luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,Avante! é largo, immenso esse horizonte…Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,E em toda a parte ha luz, vida e carinho!

Avante! os mortos ficarão sepultos…Mas os vivos que sigam, sacudindoComo o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus…Que importa? havemos de passar, seguindo,Se além do seio d'elle houver mais luz!

IV

Conquista pois sósinho o teu futuro,Já que os celestes guias te hão deixado,Sobre uma terra ignota abandonado,Homem—proscrito rei—mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro,Mas tão cruel!) e o coração magoadoSentes já de illusões desenganado,Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na magestade estoicaD'uma vontade solitaria e altiva,N'um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia,Prendendo a immensidade eterna e vivaNo circulo de luz da tua Idea!

V

Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,Jámais, a essa encoberta peregrina?Quem lhe beijou a sua mão divina?Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio,Reflectindo, levou… incerta e finaLuz, que mal bruxulêa pequenina…Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio…

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,Magros da febre d'um sonhar profundo,Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,Tu não tens outra amante em todo o mundoMais que essa fria virgem desdenhosa!

VI

Outra amante não ha! não ha na vidaSombra a cobrir melhor nossa cabeça,Nem balsamo mais doce, que adormeçaEm nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida,Como quem sabe amar e amar confessa,Quer nas nuvens se esconda ou appareça,Será sempre ella a esposa promettida!

Nossos desejos para ti, oh fria,Se erguem, bem como os braços do proscritoPara as bandas da patria, noite e dia.

Podes fugir… nossa alma, delirante,Seguir-te-ha a travez do infinito,Até voltar comtigo, triumphante!

VII

Oh! o noivado barbaro! o noivadoSublime! aonde os céos, os céos ingentes,Serão leito de amor, tendo pendentesOs astros por docel e cortinado!

As bodas do Desejo, embriagadoDe ventura, a final! visões ferventesDe quem nos braços vae de ideaes ardentesPor espaços sem termo arrebatado!

Lá, por onde se perde a phantasiaNo sonho da belleza: lá, aondeA noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá, no seio da eterna claridade,Aonde Deus á humana voz responde;É que te havemos abraçar, Verdade!

VIII

Lá! Mas aonde é lá?—Espera,Coração indomado! o céo, que anceiaA alma fiel, o céo, o céo da Idea.Em vão o buscas n'essa immensa esphera!

O espaço é mudo: a immensidade austeraDe balde noite e dia incendeia…Em nenhum astro, em nenhum sol se alteiaA rosa ideal da eterna primavera!

O Paraiso e o templo da Verdade,Oh mundos, astros, sóes, constellações!Nenhum de vós o tem na immensidade…

A Idea, o summo Bem, o Verbo, a Essencia,Só se revela aos homens e ás naçõesNo céo incorruptivel da Consciencia!

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