No meu aniversário
Poesias — Cantos da solidão
NO MEU ANNIVERSARIOAO MEU AMIGO O SR.
F. J. DE CERQUEIRA
Hélas! hélas! mes annéesSur ma tête tombent fanées,Et ne refleuriront jamais.
(Lamartine.)
Não vês, amigo? — Lá desponta a auroraSeus roseos véos nos montes desdobrando;Traz ao mundo belleza, luz e vida,Traz sorrisos e amor;Foi esta qu’outro tempoMeu berço bafejou, e as tenras palpebrasMe abrio á luz da vida,E vem hoje no circulo dos temposMarcar sorrindo o gyro de meus annos.
Já vai bem longe a quadra da innocencia,Dos brincos e dos risos descuidosos;Lá s’embrenhão nas sombras do passadoOs da infancia dourados horizontes.Oh! feliz quadra! — então eu não sentiaRoçar-me pela fronteA aza do tempo estragadora e rapida;E este dia de envolta com os outrosLá s’escoava desapercebido;Ia-me a vida em sonhos prazenteiros,Como ligeira brizaEntre perfumes leda esvoaçando.Mas hoje que cahio-me a venda amavelQue as miserias da vida me occultava,Eu vejo com tristezaO tempo sem piedade ir desfolhandoA flôr dos annos meus;Vai-se esgotando a urna do futuroSem do seio sahir-lhe os dons sonhadosNa quadra em que a esperança nos embalaCom seu fallaz sorriso.
Qual sombra vã, que passaSem vestigios deixar em seus caminhos,
Eu vou transpondo a arena da existencia,Vendo irem-se escoando uns apos outrosOs meus estereis dias,Qual naufrago em rochedo solitario,Vendo a seus pés quebrar-se uma por umaAs ondas com monotono bramido,Ah! sem jámais no dorso lhe trazeremO lenho salvador!Amigo, o fatal sopro da descrençaMe roça ás vezes n’alma, e a deixa nua,E fria como a lagem do sepulcro;Sim, tudo vai-se; sonhos de esperança,Fervidas emoções, anhelos puros,Saudades, illusões, amor e crenças,Tudo, tudo me foge, tudo vôaComo nuvem de flôres sobre as azasDe rabido tufão.Onde vou? Para onde me arrebatãoDo tempo as ondas rapidas?Porque ancioso corro a esse futuro,Onde reinão as trevas da incerteza?E se através de escuridão perenneSó temos de sulcar ignotos maresDe escolhos semeados,
Não é melhor abandonar o leme,Cruzar no peito os braços,E deixar nosso lenho errar ás tontas,Entregue ás ondas da fatalidade?
························Ah! tudo é incerteza, tudo sombras,Tudo um sonhar confuso e nebuloso,Em que se agita o espirito inquieto,Até que um dia a plumbea mão da morteNos venha despertar,E os sombrios mysterios revelar-nos,Que em seu escuro seioCom ferreo sello guarda a campa avara.
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