Em petiz

IDe tarde

Mais morta do que viva, a minha companheiraNem força teve em si para soltar um grito;E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito,Como um homenzarrão servi-lhe de barreira!

Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas,Desciam mais atrás, malhadas e turinas.

Do seio do lugar - casitas com postigos -Vem-nos o leite. Mas batizam-no primeiro.Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos!

Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!E os fartos animais, ao recolher dos pastos,Roçavam pelo teu "costume de percale".

Já não receias tu essa vaquita preta,Que eu seguirei, prendi por um chavelho? JuroQue estavas a tremer, cosida com o muro,Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

IIIrmãozinhos

Pois eu, que no deserto dos caminhos,Por ti me expunha imenso, contra as vacas;Eu, que apartava as mansas das velhacas,Fugia com terror dos pobrezinhos!

Vejo-os no pátio, ainda! Ainda os ouço!Os velhos, que nos rezam padre-nossos;Os mandriões que rosnam, altos, grossos;E os cegos que se apóiam sobre o moço.

Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros,Os que a poeira no suor mascarra,Chegam das feiras a tocar guitarra,Rolam os olhos como dois escarros!

E os pobres metem medo! Os de marmita,Para forrar, por ano, alguns patacos,Entrapam-se nas mantas com buracos,Choramingando, a voz rachada, aflita.

Outros pedincham pelas cinco chagas;E no poial, tirando as ligaduras,Mostram as pernas pútridas, maduras,Com que se arrastam pelas azinhagas!

Querem viver! E picam-se nos cardos;Correm as vilas; sobem os outeiros;E às horas de calor, nos esterqueiros,De roda deles zumbem os moscardos.

Aos sábados, os monstros, que eu lamento,Batiam ao portão com seus cajados;E um aleijado com os pés quadrados,Pedia-nos de cima de um jumento.

O resmungão! Que barbas! Que sacolas!Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;Dormia as noutes por telheiros rotos,E sustentava o burro a pão de esmolas.

Ó minha loura e doce como um bolo!Afável hóspeda na nossa casa,Logo que a tórrida cidade abrasa,Como um enorme forno de tijolo!

Tu visitavas, esmoler, garrida,Umas crianças num casal queimado;E eu, pela estrada, espicaçava o gado,Numa atitude esperta e decidida.

Por lobisomens, por papões, por bruxas,Nunca sofremos o menor receio.Teríveis, vós, porém, o meu asseio,Mendigazitas sórdidas, gorduchas!

Vícios, sezões, epidemias, furtos,Decerto, fermentavam entre lixos;Que podridão cobria aqueles bichos!E que luar nos teus fatinhos curtos!

Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,Ruça, descalça, a trote nos atalhos,E que lavava o corpo e os seus retalhosNo rio, ao pé dos choupos e dos freixos,

E a doida a quem chamavam a "Ratada"E que falava só! Que antipatia!E se com ela a malta contendia,Quanta indecência! Quanta palavrada!

Uns operários, nestes descampados,Também surdiam, de chapéu de coco,Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,Artistas despedidos, desgraçados.

Muitos! E um bêbado - o Camões - que foraRico, e morreu a mendigar, zarolho,Com uma pala verde sobre um olho!Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

E o resto? Bandos de selvagenzinhos:Um nu que se gabava de maroto;Um, que cortada a mão, coçava o coto,E os bons que nos tratavam por padrinhos.

Pediam fatos, botas, cobertores!Outro jogava bem o pau, e vinhaChorar, humilde, junto da cozinha!"Cinco-réizinhos!... Nobres benfeitores!..."

E quando alguns ficavam nos palheiros,E de manhã catavam os piolhos:Enquanto o sol batia nos restolhosE os nossos cães ladravam, rezingueiros!

Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.Sulcavam as calçadas, as muletas;Cantavam, no pomar, os pintarroxos!

IIIHistórias

Cismático, doente, azedo, apoquentado,Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,Assim que um besuntão dos tais se apercebiaDa minha blusa azul e branca, de riscado.

Mináveis-me, ao serão, a cabecita loura.Com contos de província, ingênuas criaditas:Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,E pondo a gente fina, em postas, de salmoura!

Na noite velha, a mim, como tições ardendo,Fitavam-me os olhões pesados das ciganas;Deitavam-nos o fogo aos prédios e arribanas;Cercava-me um incêndio ensanguentado, horrendo.

E eu que era um cavalão, eu que fazia pinos,Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;Sonhava que os ladrões - homens de quem me espanto -Roubavam para azeite a carne dos meninos!

E protegia-te eu, naquele outono brando,Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,Gritos de maiorais, mugidos de boiadas,Branca de susto, meiga e míope, estacando!

Comments

Loading comments…