A Máscara
Translated from French by Delfim Guimarães
Flores do Mal
Estátua alegórica no gosto da Renascença
Reparae. Que primor de graças florentinas!Na suave ondulação do corpo musculoso,A Força e a Elegância ostentam-se divinas.Essa esbelta mulher, — bloco maravilhoso,Divinamente forte, e docemente guapa,Destinada parece a um leito sumptuoso,A ser a distracção d’um rei ou de algum papa.
Olhae aquele rir fino e voluptuoso,Num éxtase ideal de fátua garridice;O escarninho olhar, lànguido e mentiroso;O rosto peregrino, a transluzir meiguice,Que parece dizer, vencedor e orgulhoso:«Chama por mim o Amor; a Volupia sorri-me!...»A este ser gentil, cheio de majestade,Vede que seduções a gentileza imprime!Mas vejamos melhor o vulto da beldade.Ó surpresa fatal! blasfemia que a arte gera!A divina mulher de rosto sedutorDuas cabeças tem, como infernal quimera!Mas não! É simples másc’ra, o rosto enganador,A face que apresenta um riso triunfal.Como vēdes, lá está, crispado horrivelmente,O verdadeiro rosto, a cabeça real,Que se esconde, a chorar, na máscara ridente.— Ó misera beleza I o esplendoroso rioDo teu pranto vem dar á foz dos meus abrolhos;A tua falsidade embriaga.me, e eu sorrioCom os caudaes que a Dôr faz brotar dos teus olhos!– Mas porque ha de chorar a beleza correctaQue a seus pés pode ver todo o homem vencido?Que misterioso mal faz carpir essa atléta?— Ela chora, sabel, porque já tem vivido,
E ainda viva está!... Mas o que mais deplora,O que mais exacerba a sua mágoa atroz,É que ainda amanhan viverá, como agora...A’manhan, e depois, e sempre! — como nós!
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