A uma Madona

Translated from French by Delfim Guimarães

Flores do Mal

Madona, minha amante, eu quero te elevar,No melhor do meu ser, um subterráneo altar;Abrir no coração, recatado, escondido,Longe dos maus, do olhar do mundo pervertido,Um lindo nicho azul de cúpula doirada,E ali hei de erigir-te, Imágem, deslumbrada!Com meus Versos subtis, do mais puro metal,N’um paciente labor, com rimas de cristal,Formarei um Diadema enorme p’ra toucar-te;

E com meu próprio ciume hei de saber talhar-te,Ó Madona terrestre, um Manto inegualado,Sóbrio e farto burel de Suspeitas forrado,Que, como uma guarita, encerre o teu encanto;Bordá-lo-ei depois co’as perlas do meu Pranto!Teu Vestido será meu Desejo fremente,Que ora sobe ora desce, inquieto, impaciente,A baloiçar no monte, a repoisar no prado,De beijos a vestir teu corpo albi-rosado.Farei do meu Respeito os Chapins pequeninosCom que heide preservar-te os pèsinhos divinos,E onde se ha de imprimir, como em cera ou em neve,A fórma do teu pé, tam pequeno e tam leve.Mau grado o meu esforço e toda a minha arte,Não podendo uma Lua argêntea colocar-teÁ laia de Escabelo, hei de a teus pés deporA Serpente infernal, o monstro roedorQue me lacera o peito, e tu has de-a pisar,Como um verme soez, sob o teu calcanhar.Verás então fulgir a luz dos Sonhos meus,Como Círios no altar da Virgem mãe de Deus,Iluminando o fundo azul do teu abrigo,O teu vulto a envolver n’um doce olhar amigo!E como te estremece o que ha de bom em mim,Tudo transformarei em Nardo e Benjoim.E em ondas de vapor, branca Serra nevada,Ha de elevar-se a ti, minh’Alma atormentada.E para completar teu papel de Maria,E para conjugar o amor co’a barbaria,

Ó negra embriaguez! dos Pecados mortaes,Carrasco bestial, farei sete Punhaes,Cortantes a valer, e a um por um, a eito,A todos cravarei, ó Virgem, no teu peito,Em pleno Coração, no teu peito anhelante,Em teu peito a sangrar, Madona, minha amante!

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