Flores do Mal — Canto de Outono
Translated from French by Delfim Guimarães
Vamos, prestes, entrar na frígida estação;Adeus, fulgente luz dos dias estivaes!Ouço descarregar, com notas sepulcraes,A lenha destinada ao lume do fogão.Torna a invadir meu ser todo o inverno: terror,Odio, raiva, paixão, constante mal-estar;E, como o rubro sol na fornalha polar,Transforma-se meu peito em brasa sem calor.
Escuto, horrorizado, as madeiras caíndo;Um cadafalso a erguer não produz som mais triste.Como torre ou castelo, a alma não resisteAos botes que o ariete, audaz, vae despedindo.Embalado p’lo som monótono, pareceQue pregam um caixão, á pressa, aqui ao lado...O Estio vae morrer... O Outono está chegado!O misterioso som lembra piedosa prece.
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Eu amo a verde luz do teu profundo olhar,Mas não ha nada já que minh’alma comova;Bem mais que teu amor e tua alegre alcovaVale hoje para mim o sol beijando o mar.Mas não deixes de amar-me, ó alma boa e pia!Serve de mãe ao triste, á ingrata creatura;Amante ou minha irman, sê a efêmera doçuraD’um glorioso outono ou de um sol na agonia.Tenho a cova a esperar l... será curta a missão.Oh! deixa em teu regaço a fronte repousar,E, chorando o estio ardente, saborearA amarelida luz d’este fim de estação!
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