Castigo do Orgulho

Translated from French by Delfim Guimarães

Flores do Mal

Em tempos que lá vão, quando a TeologiaEstava no apogeu da seiva e da energia,Conta-se que um doutor, d’entre os mais eminentes— Depois de avassalar peitos indiferentes,Lançando a jorros luz na escuridão agreste;Depois de enveredar, para a glória celeste,Por caminhos por onde haviam ’té entãoApenas transitado as almas de eleição,Como quem sobe á altura, e fica estonteado,Orgulhoso, clamou n’um satânico brado:

— Ó mísero Jesus! levantei-te bem alto!«Mas, se em vez de exaltar-te, assim como te exalto,«Rebaixar te quisera, ó pobre corpo morto,«Não serias um deus, mas sim risório aborto!»Logo a luz da razão ao doutor se apagou,Como radiante sol que denso veu nublou;Fez-se um medonho cáos n’aquela inteligência,Templo vivo que foi de método e opulência.Onde tanto esplendor mostrara o seu clarão,A treva e o silêncio abrigaram-se então,Como no mausoleu d’uma raça extinguida.Como animal vadio, arrastou-se p’la vida,Sem ouvir, sem olhar, por atalhos sombrios,Sem saber distinguir invernos nem estios;Inutil, sujo, feio, em seus andrajos rotos,Provocando a pedrada e as váias dos garotos!

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