Irreparável

Translated from French by Delfim Guimarães

Flores do Mal

1

¿Podemos nós banir o remorso implacavel,Que em nosso peito faz ninho,E se nutre de nós como um verme insaciavel,Como o caruncho daninho?Podemos nós banir o remorso implacavel?¿Em que filtro ou licor, em que vinho ou tisana,Afogar quem nos fatiga,

Guloso e destruidor qual frivola mundana,Paciente como a formiga?Em que filtro ou licor? — em que vinho ou tisana?Ó feiticeira ideal, dize-m’o tu, oh! di-loÁ minh’alma timorata,Que lembra um moribundo ao ver a contundi-loD’um cavalo a férrea pata!Ó feiticeira ideal, dize-m’o tu, oh! di-loAo ente a agonizar que o lobo já fareja,E a quem o corvo procura,Ao soldado infeliz que, suspirando, almejaPela paz da sepultura;Ao ente a agonizar que o lobo já fareja!Póde alguem colorir um ceu negro e lodoso?¿Rasgar a treva sombria,Mais negra que o carvão, sem astro luminoso,Sem uma luz fugidia?Pode alguem colorir um ceu negro e lodoso?A Esp’rança que brilhava outrora na PousadaExtinguiu-se, morreu já!Sem uma luz que a oriente, a alma transviadaOnde é que se albergará?Satanaz apagou as luzes da Pousada!Feiticeira gentil, amas os condenadosQue não logram remissão?

Conheces do Remorso os tiros disparadosAo alvo do coração?Feiticeira gentil, amas os condenados?O Irreparável róe co’a dentuça malditaNossa alma, piedoso hospício.E por vezes ataca, assim como a termita,Pela base o edifício.O Irreparável róe co’a dentuça maldita!

2

Algumas vezes vi, nas mágicas banaes,Ao som de orquestras sonoras,A fadas converter negros ceus infernaesEm deslumbrantes auroras;Algumas vezes vi, nas mágicas banaes,Um pequenito ser, a espargir claridade,Satanaz afugentar;

Mas o meu pobre peito, em negra soledade,Cansa-se em vão a esperarO pequenino ser a espargir claridade!

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