O Cabelo
Translated from French by Delfim Guimarães
Flores do Mal
Ó tranças em aneis afagando-te a alvuraDo colo juvenil! Ó perfume sem par!Éxtase! Vou povoar a minha alcova escuraCom as recordações que dormem na espessuraDo teu cabelo, amor, fazendo-o destrançar!A África abrasadora e a Ásia langorosa,Todo um mundo distante, ausente, evocador,Vive na solidão d’essa grenha olorosa!Como vogam mortaes na onda harmoniosa,Eu gosto de nadar no teu divino olor.
Quero ver as regiões tropicaes, luxuriantes;Negras tranças, servi-me de vagas veleiras.Transportae-me no dorso aos países distantes!Mar de azeviche, mar de sonhos deslumbrantes,Com corvetas reaes, com mastros e bandeiras!O’porto sem egual onde a minh’alma inglóriaPode á larga absorver sons, perfumes e côr;Onde as grandiosas naus, na sua trajectòria,As velas colossaes desfraldam para a glóriaD’um céu puro onde esplende o eterno calor.Eu quero mergulhar a lânguida cabeçaNesse soturno mar que encerra o proprio mar,E o espírito subtil, sobre a vaga travessa,Fará, ó meu amor, com que eu me desvanecaNum éxtase ideal, perfumes a aspirar!Ó cabelos azues, tranças ebanizadas,Viva imagem do ceu azul na escuridão;Nos lindos caracoes, nas mechas desgrenhadas,Consigo distinguir as essências variadasDo coco, do ananaz, do musgo e do alcatrão.Hoje, à manhan, e sempre l ó grenha estremecida,Com per’las, com rubins e com safiras hadeToucar-te com amor minh’alma agradecida,Para que sejas sempre a taça apetecidaPor onde bebo, a flux, o vinho da saudade!
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