O Frasco

Translated from French by Delfim Guimarães

Flores do Mal

Na perfumes que teem o condão singularDe todo e qualquer vazo ou frasco atravessar.A’s vezes, ao abrir um cofre do Levante,Sentindo a fechadura estrugir, lancinante,Ou, n’um velho solar, um contador torneado,Poeirento, carcomido, a um canto abandonado,Logramos descobrir um frasco alvinitente,D’onde se evola, viva, a alma d’um ausente.

Doces recordações, quaes funéreas crisálidas,Estavam a dormir n’essas trevas esquálidas!Ei-las a revoar n’uma nuvem radiosa,Laminadas de azul, doiradas, cor de rosa;Pairando pelo espaço, em turbilhões alados,Fazendo-nos cegar os olhos deslumbrados,E levando a nossa alma aos abismos arcanosOnde estão a dormir os miasmas humanos;Ali, tá-la enterrar n’um antro solitário,E, quando ela consegue arrancar o sudário,Encontra junto a si o cadaver ’spectralD’um bolorento amor, radiante e sepulcral.Assim, quando amanhan minha recordaçãoDos homens se varrer, e n’um pobre caixãoMeu corpo descansar, como um frasco esquecido,Envolto em cinza e pó, já meio carcomido,Serei o teu sepulcro, amavel pestilência,Testemunha fiel da tua virulência,— Ó veneno infernal, angélica bebidaQue me vaes dando a morte, e és toda a minha vida!

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