Passado e Presente

Translated from French by Delfim Guimarães

Flores do Mal

Eu gosto de evocar as épocas distantesEm que Febo doirava os ídolos gigantes.O homem e a mulher, cheios de mocidade,Gosavam sem embuste e sem ansiedade,E, exercendo o vigor dos seus músculos de aço,Protegia-os o Céu do tédio e do cansaço.Cibela, que era então fértil e generosa,Mostrava os filhos seus, contente e orgulhosa;E o leite grosso e bom do seu colo trigueiroAmamentou, feliz, o universo inteiro.

O homem, belo e forte, era o modelo vivoDo rei da creação, generoso e altivo;Frutos esculturaes, sem mancha, a apetecerA carne rija e san beijar-lhes... e morder!O Poeta, se hoje em dia intenta recordarAs grandezas de então, quando vê perpassarA nudez da mulher e a miséria do homem,Sente que o frio e a dôr a alma lhe consomemAnte o quadro brutal que lhe magôa a vista.Que monstros, que aleijões! Que trágica revista!Que pobres troncos nus! Que fórmas, que feitios!Tristes corpos sem côr, magros, gordos, esguios,Que o deus utilitário, implacável e nobre,A nascença, envolveu em coeiros de cobre l...E vós outras, mulher’s, da palidez dos círios,Corróe a podridão vossos corpos de lírios;Sofreis a expiaçãc dos vícios maternaes,E aos filhos transmitis as pústulas que herdaes!É certo que mostrar podemos ao PassadoAs creações gentis que temos inventado:Cancros no coração, dôr d’alma, languidez,E outras belezas mais deste mesmo jaez!...

Mas estas produções de líricos dementesNão podem impedir que os povos decadentesPrestem á mocidade a homenagem devida,— Á mocidade san, robusta, comedida,A fronte dominal, o olhar iluminado,E derramando a flux, sobre este descampado,Como o azul dos céus, como as aves e a flor,Suas canções viris, seu perfume e calor!

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