Tédio
Translated from French by Delfim Guimarães
Flores do Mal
Tenho as recordações d’um velho milenário!Um grande contador, um prodigioso armário,Cheiinho, a abarrotar, de cartas, memoriaes,Bilhetinhos de amor, recibos, madrigaes,Mais segredos não tem do que eu na mente abrigo.Meu cer’bro faz lembrar descomunal jazigo;Nem a vala comum encerra tanto morto!
— Eu sou um cemitério estranho, sem conforto,Onde vermes aos mil — remorsos doloridos,Atacam de pref’rência os meus mortos queridos.Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,Onde jazem no chão as modas despresadas,E onde, sós, tristemente, os quadros de BoucherFruem o doce olor d’um frasco de Gellé.Nada póde egualar os dias tormentososEm que, sob a pressão de invernos rigorosos,Tédio, fruto inf’liz da incuriosidade,Alcança as proporções da Imortalidade.— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente,Do que granito envolto em terror inconsciente.A emergir d’um Saarah movediço, brumoso!Velha esfinge que dorme um sôno misterioso,Esquecida, ignorada, e cuja face friaSó brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!
FIM
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