Nos Campos (Cruz e Sousa)
Por entre campos de seara louraDe alegre sol puríssimo batidos,Passam carros chiantes de lavouraE raparigas sãs, de coloridosQue a luz solar que as ilumina e douraLembram pomares e jardins floridos,Por entre campos de seara loura.
A Natureza inteira reverdecePelos montes e vales e colinas;E o luar que freme, anseia e resplandece,Movido por aragens vespertinas,Parece a alma dos tempos que floresce...Enquanto que por prados e campinasA Natureza inteira reverdece.
A paz das coisas desce sobre tudo!E no verde sereno d’espessuras,No doce e meigo e cândido veludo,Tremem cintilações como armadurasOu como o aço brunido dum escudo;Enquanto que das límpidas alturasA paz das coisas desce sobre tudo!
A casa, a rude tenda construída,Onde habitam as mães e as criançasPromiscuamente, nessa mesma vidaDe perfume lirial das esperanças,Como é feliz, dos astros aquecida!Aquecida do Amor nas asas mansasA casa, a rude tenda construída.
As bocas impolutas e cheirosasDas raparigas, pródigas belezasDe finos lábios púrpuros de rosas,Abrem, cheias de angélicas purezas,As cristalinas fontes murmurosasDe risos, refrescando em correntezasAs bocas impolutas e cheirosas.
Da vida aurora rica do seu sangueFlameja a carne em báquicas vertigens!E quem tiver uma epiderme exanguePara ficar com essas faces virgens,Para não ser mais pálida nem langue,Tem de beber das cálidas origensDa viva aurora rica do seu sangue.
Lindas ceifeiras percorrendo. searasNos campos, ó bizarras raparigas,Pelas manhãs e pelas tardes clarasVós desfolhais sorrisos e cantigasQue deixam ver as pérolas mais rarasDos dentes brancos, frescos como estrigas...Lindas ceifeiras percorrendo searas!
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