A enchente

Era alta noite. Caudaloso e tredoEntre barrancos espumava o rio,Densos negrumes pelo céu rolavam,Rugia o vento no palmar sombrio.Triste, batido pelas águas torvasGirava o barco na caudal corrente,Lutava o remador — e ao lado deleUma virgem dizia tristemente:

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

E são jovens, bem jovens! na cabanaDormiam calmos sem pensar na sorte;A enchente veio, e no agitar infreneDe um sono meigo os conduziu à morte!A f'licidade é um sonho nebuloso,...A vida neste mundo é sempre assim,Do gozo em meio a veladora eternaNos arranca da mesa do festim!

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

— Rema, rema, barqueiro; olha — lá em baixoÀ luz vermelha do fuzil que passa,Não ves o vulto de um rochedo escuroQue a correnteza estrepitando abraça?— Oh se o vejo, senhora; eu bem o vejo!Diz o barqueiro com sinistra voz;Pedi à Virgem que os perigos velaQue tenha ao menos compaixão de nós!

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

Eis dentre as vagas de caligem densaVem macilenta se mostrando a lua,Como à luz dela a natureza é morta,Como a planície é devastada e nua!Perto, tão perto se levanta a margemOnde fagueira a salvação sorri,E nós rolamos, e rolamos sempreE não podemos aportar ali !

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

Duro, insofrido o vendaval soergueDa onda a face em convulsão febril;— Barqueiro, alento! e chegando em terra,Hei de cobrir-te de riquezas mil.

Porém no dorso do dragão das águasLutava o barco — mas lutava em vão,E a pobre moça desvairada em prantosPedia à Virgem que lhe desse a mão!

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

— Ouve, barqueiro, que rugido é esseProfundo e surdo que lá em baixo soa?Parece o ronco de um trovão medonhoQue dos abismos pelo seio ecoa! —Oh!. 'stou perdido ! ... abandonando os remosClama o infeliz a delirar de medo,Oh é a morte que nos chama, horrível,No fundo escuro de feral rochedo!

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

Ia o batel. Ao sorvedouro imensoEra impossível se esquivar então,Dentro sentado — o remador chorava,E a donzela dizia uma oração.Já diante deles entre véus de espumaTreda — a voragem com furor rugia,E uma coluna de ligeiro fumoDo centro escuro para o céu subia.

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

Súbito o barco volteou rangendo,Tremeu em ânsia — se estorceu, recuou, —Deu a virgem um grito — outro o barqueiroE o lenho na voragem se afundou!Tudo findou-se. O vendaval sibilaCorrendo infrene na planície nua,O rio espuma e nas revoltas ondasDescem dois corpos ao clarão da lua.

Como ao rijo soprar das ventaniasOs mortos bóiam sobre as águas frias!

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