Desalento (Florbela Espanca)
Ao grande e estranho poeta A. Durão
Às vezes oiço rir, é ’ma agoniaQueima-me a alma como estranha brasaTenho ódio à luz e tenho raiva ao diaQue me põe n’alma o fogo que m’abrasa!
Tenho sede d’amar a humanidade...Eu ando embriagada... entontecida...O roxo de maus lábios é saudadeDuns beijos que me deram n’outra vida!
Ei não gosto do Sol, eu tenho medoQue me vejam nos olhos o segredoQue só saber chorar, de ser assim...
Gosto da noite, imensa, triste, preta,Como esta estranha e doida borboletaQue eu sinto sempre a voltejar em mim!
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