A Cigana

Lá corre a morena, levando faceiraNa cinta punhal,Veloz como a ema saltando ligeiraPor montes e val !

Gentil, engraçada,Dissereis levadaPor artes de amor !Agora fugindo,SorrindoInnocente,Lá vai de repentePulando…Brincando…Fallando…No prado co’a flor.

A linda trigueira cançada sentou-seNo verde tapiz ;Mas—logo—um momento de pé levantou-seContente e feliz.

—«Travessa menina,Vem ler minha sina,Não fujas, vem cà !»Chegou-se a cigana,Que enganaInnocenteCom ditos a gente,Saltando…Gyrando…Cantando…No seu patuá.

Que vida de louca ! Que amores ! Que ditos !Que voz que ella tem !Seus olhos são grandes, são pretos—bonitos—Relusem tão bem !…

Que momo engraçado!Seu pé delicadoMal toca no chão !Arfava-lhe o seioDe enleioInnocente !Olhou me de frente,Parando…Corando…Scismando…Trovou-me da mão.

Medita enleiada,—talvez vergonhosa,—Das graças que fez.Agora tremendo parece uma rosaCahindo de vêz !

—«Que sentes, morena ?Acaso tens penaQue eu morra por ti?Que sorte, querida !Que vida,Innocente !Viver docementeTe amando…Brincando…Beijando…Teus labios—aqui !

Olhou-me raivosa ! Seus labios tremendoDe vivo coralSão mudos, não fallam.—Nos ares movendoMostrou-me o punhal.

—«Que genio tão forte !Me dás cruel mortePor beijos, ó flor ? !Crueza de ingrata !Pois mata,Innocente !Qu’eu saiba somente;Te amando…Brincando…Folgando…Que a morte é de amor !»

A linda cigana tirando do seioDe clicia um balão,Fallou ás folhinhas com susto e receio,Contando-as na mão.

Agora sem medoMansinha do dedoTirou-me um annel :Então já fugindo,Sorrindo,Innocente,Me diz de repente,Pulando,Voando…Cantando…«Serei-te fiel !»

E foi-se a cigana, levando faceiraNa cinta punhal,Veloz como a ema saltando ligeiraPor serras e val.

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