A Somnambula

Alta noite nas trevas perdidaBranca sombra de um’alma sentidaAerea caminha… caminha á voar !…

Parece a neblina levada do vento,Da noite ao relentoPhantasma que a mente costuma sonhar !

Lá corre ligeira…Talvez feiticeiraQuem sabe si o é?Mas eil-a cançada, que agora parando,Medita scismandoAo longe—de pè !

Das estrellas á luz frouxa, escaçaMais se eleva e medonha se exalçaNas trevas a sombra que surge acolá !Cheguemos ao perto…—Meu Deus que mysterio !Emblema funereoDe negros pezares acaso será ? !

Ai ! pobre menina !Gentil peregrinaDesprende o teu véo !Estatua não falla : seus labios abertosMurmuram concertosDos anjos do céo !

Tem a face sem cor desmaiada,Meiga rosa talvez desbotadaEm lubricos gozos de immundo prazer !Dos olhos o lume tão languido, escaço,Vagueia no espaçoBuscando as estrellas que avista sem vêr !

Coitada ! que vida !Tão moça perdidaDos annos na flor !Oh pallida sombra de virgem serena !Incauta açucena,Tu morres de amor ?…

Não responde : nos labios o risoDa donzella bem mostra que o sisoPerdera-se em norte de orgia infernal !Um anjo dissereis da graça cahido,De todo perdido,Perdido nas trevas chorando o seu mal !

Oh louca amorosa !Gentil mariposa,Não fujas de mim !Eu quero em teus braços a vida de amantePassar um instanteBeijando-te assim !

Frio vento soprou-lhe os cabellos,Desprendidos e soltos e bellos,Quaes harpas celestes dos anjos de Deos !São notas aereas o canto da briza.Que assim se deslisaNas cordas sonoras, voando p’ra os céos !

Que doce belleza !Si d’alma a purezaNão desses de mão,Serias, ó bella, de Deus invejada,Dos anjos amadaCom louca paixão !

Não importa ! ha de amar-te minh’almaCo’este fogo que nunca se acalmaNa tôrva existencia do meu padecer !Comtigo abraçado no riso e nas dores,Morrendo de amoresFarei a ventura do nosso viver !

Ai ! tremes, suspiras ?Amante delirasDe amor que seduz ? !

Oh pallida sombra de virgem perdida !Procura na vidaUm astro uma luz !

E olhou-me calada chorando,E convulsa sorriu soluçando,Que o sangue gelar-se no peito senti !Ideia de mortos a mente me assalta,Eis cresce e se axalta…Até que por teria tremendo cahi !…

Que sina !—dormiaEm noite tão friaCorrendo a sonhar !Estrella nas trevas tremendo, luzindo,A pobre sorrindoFugiu-me a voar…

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