Ja a roxa manhãa clara

Ja a roxa manhãa claraAs portas do Oriente vinha abrindo;Os montes descobrindoA negra escuridão da luz avara.O sol, que nunca pára,Da sua alegre vista saudoso,Traz ella pressurosoNos cavallos cansados do trabalho,Que respirão nas hervas fresco orvalho,S'estende claro, alegre e luminoso.Os passaros voando,De raminho em raminho vão saltando;E com suave e doce melodiaO claro dia estão manifestando.

A manhãa bella, amena,Seu rosto descobrindo, a espessuraSe cobre de verduraClara, suave, angelica, serena.Oh deleitosa pena!Oh effeito d'Amor alto e potente!Pois permitte e consenteQu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja,O seraphico gesto sempre veja,Por quem de viver triste sou contente.Mas tu, Aurora pura,De tanto bem dá graças á ventura,Pois as foi pôr em ti tão excellentes,Que representes tanta formosura.

A luz suave e ledaA meus olhos me mostra por quem mouro,Com os cabellos d'ouro,Que nenhum ouro iguala, se os remeda.Esta a luz he que arredaA negra escuridão do sentimentoAo doce pensamento;Os orvalhos das flores delicadasSão nos meus olhos lagrimas cansadas,Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento;Os passaros que cantão,Meus espiritos são, que a voz levantão,Manifestando o gesto peregrinoCom tão divino som, que o mundo espantão.

Assi como aconteceA quem a chara vida está perdendo,Qu'em quanto vai morrendo,Alguma visão santa lh'apparece;A mim em quem falleceA vida, que sois vós, minha Senhora,A est'alma, qu'em vós mora(Em quanto da prisão s'está apartando)Vos estais justamente apresentandoEm fórma de formosa e roxa Aurora.Oh ditosa partida!Oh gloria soberana, alta e subida!Se me não impedir o meu desejo;Porque o que vejo, emfim, me torna a vida.

Porém a natureza,Que nesta pura vista se mantinha,Me falta tão asinha,

Como o sol faltar soe á redondeza.Se houverdes qu'he fraquezaMorrer em tão penoso e triste estado,Amor será culpado,Ou vós, ond'elle vive tão isento,Que causastes tão largo apartamento,Porque perdesse a vida co'o cuidado.Que se viver não posso,Homem formado só de carne e osso,Esta vida que perco, Amor ma deo;Que não sou meu: se morro, o damno he vosso.

Canção de cysne, feita em hora extrema,Na dura pedra friaDa memoria te deixo em companhiaDo letreiro da minha sepultura;Que a sombra escura ja m'impede o dia.

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