O Grande Curador do Mal das Vinhas
Cesse tudo quanto a antiga musa canta,Que outro valor mais alto se alevanta!
Camoens. — Lus. Cant. 1.
Cá do antro negregado em que eu habito,Envolto na pobreza que me opprime;Da fatal ignorancia ao duro peso,Qual o réo que commette horrendo crime.
Ao mundo não lembrado, como a sombraDe ignorado Pastor em ermos valles;Soffrendo da miseria atroz revezes,Do meu fado curtindo acerbos males:
Prostrado á somnolencia que dominaA’ turba dos mortaes assim rendidos,De repente desperto ao som medonhoDe brados estridentes — alaridos!
Impavido, correndo, me encaminho,Em busca do successo não cuidado,Que, os ares atroando, se annuncia,Qual fero Adamastor, bramindo irado!
A’ trancos e barrancos, tropeçando,De subito deparo fronte a fronte,— Não de susto fallece comovido,Com feyo, desgrenhado e sujo Bronte!
Era hirsuta a melena, esfiapada,Que nos hombros vergados se esparzia;A boca retorcida, os dentes verdesRotunda era a cabeça, mas vazia.
Trajava uma casaca que invejáraUm judas, ou magriço Gafanhóto;Presente que lhe dera, em despedida,O seu velho patrão, que era piloto.
Com denodo, montava, um gran tonel,Tinha frente, de parras, enfeitada;Empunhando na dextra uma seringa,E na sextra uma vinha, já curada.
Diante do heroe vinham, saltando,Uma chusma de Bacchos, de cornetas;Tambem vinha Priapo, enfurecido,Entre velhas zanagas, e cambêtas!
D’espanto dominado, lhe pergunto:Quem és tu, ó mortal, que assim caminhas?Responde-me o colosso, insano e forte:“O grande curador do mal das vinhas!!”
E soprando-me a testa, d’improviso,Por pouco me não deixa sem juizo!Aos ares se elevou, empavesado,As abas da casaca abrindo ouzado;
E, logo que da terra se apartou,Sobre as nossas cabeças espalhou:Um chuveiro de annuncios, em gazettas,Retumbantes artigos, grossas petas;A capa-rosa, a galha, a t’rebentina,.Essencia de tabaco, e de quinina;Pontinhas de charutos, já fumados,Ratos mortos, em vinho conservados;Pomposos elogios, em jornaes,Sementes p’ra o fabrico de animaes:Um tractado das cousas reunidas,E mais outras cousitas esquecidas!Nem Cesar, Bonaparte, nem Mavorte,E outros em quem poder não teve a morte,Egualam, no saber, o pregoeiro,Que das vinhas se acclama — curandeiro..Por elle se esqueçam os humanosDe Assyrios, Persas, Gregos e Romanos— Que nas grimpas da gloria repimpadoUm abraço vai dar no sol dourado.
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