Anarda doente
Anarda enferma flutua,E quando flutua enferma,Jaz doente a fermosura,Está fermosa a doença.
Se nela a doença tristeBela está, que será nelaDe tanta graça o donaire!De tanta luz a beleza!
Se o mal é sombra, ou eclipse,É pensão das luzes certa,Que ao Céu uma sombra aspire,Que ao Sol um eclipse ofenda.
Cruéis prognósticos vejo,Pois são ameaças feras,O Sol entre eclipses pardos,O Céu entre nuvens densas.
Quando as belas flores sentemDe Anarda a grave tristeza,Digam-no as rosas na face,Digam-no os jasmins na testa.
Faltam flores, faltam luzes,Pois ensina Anarda belaLições de flores ao Maio,E leis de luzes à Esfera.
As almas se admiram todasEm repugnâncias austeras,Vendo enferma a mesma vida,Vendo triste a glória mesma.
Desdenhado Amor se vinga,Se n'ânsia a febre a condena;Pois qual ânsia amor se forja,Pois qual febre amor se gera.
Basta já, Frecheiro alado,Bate as asas, solta a venda;Do rosto o suor lhe alimpa,Do peito o ardor refresca.
Vem depressa, Amor piedosoQue te importa, pois sem elaEm vão excitas as chamas,Em vão despedes as setas.
Mas não teme a morte Anarda,Que se ũa morte a cometa,Com mil almas se defende,Com mil corações se alenta.
De mais sim que nunca a ParcaContra Anarda se atrevera,Que contra as frechas da MorteFulmina de Amor as frechas.
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