Que pavor, que crueza?

IQue pavor, que crueza?Que pena, que desdita a Lísia enluta!Já do pranto a tristeza,Como mar lagrimoso, ao mar tributa;Vendo Netuno, para novo espanto,Que tem dois mares, quando corre o pranto.

IIEspanha lastimadaPelas razões do sangue generoso,Toda se mostra irada,E brama contra o golpe rigoroso,E para ser no Mundo mais temido,Por boca do Leão faz o bramido.

IIIMostra Alemanha o finoExcesso quando sente o seu tormento,Porque do PalatinoA pátria faz ser próprio o sentimento;E o Danúbio, que é rio arrebatado,Parece que na dor se vê parado.

IVFrança, que nobrementeA Lusitânia ostenta amor seleto,De luto reverenteA seus Francos vestiu com franco afeto;E tendo nesta mágoa altas raízes,Em roxos lírios troca as brancas Lises.

VItália a dor publicaEm Florença, que rica se nomeia,Mas de mágoas é rica;Nápoles bela em dor se torna feia:Porém Roma, que santa se conhece,Com Princesa tão santa se engrandece.

VIAmérica sentidaFaz tanta estimação da dor, que ordena,Que desejara a vidaEterna, para ser eterna a pena;E quando no tormento mais se alarga,O doce açúcar troca em pena amarga.

VIIA belíssima Aurora,Que chora de Mémnon a morte escura,Também padece, e choraDesta perda cruel a desventura;E com dobrada dor da infausta sorteSe uma morte chorou, chora outra morte.

VIIIO Sol, que luminosoTem o império das luzes no Hemisfério,Já não quer ser lustroso,E quisera largar o claro império,Pois de uma Águia Real na morte tristeO majestoso vôo não lhe assiste.

IXTambém padece a LuaDesta mágoa infeliz o desalento,E quando mais flutua,No inconstante noturno luzimentoMinguante, e cheia está, se a dor se estréiaMinguante em glórias, de desditas cheia.

XAs estrelas luzentes,Que ao Sol no claro Pólo substituem,Parecendo inclementes,Se presságios cruéis ao Mundo influem,Com tal rigor desta influência usaram,Que em cometas infaustos se trocaram.

XIOs Planetas errantes,Triste a Saturno tem no Céu rotundo;Vênus para os amantesTem da sorte feliz o bem jucundo;Porém para Isabel, que é Vênus pura,Não quis Vênus ser astro da ventura.

XIIO Cipreste funesto,Que se levanta ao Céu triste, e frondoso,Neste tormento infestoPrepara os ramos seus por lastimoso,E tendo o ser, que é só vegetativo,Em corpo se transforma sensitivo.

XIIIA pacífica Oliva,Que no Dilúvio foi da paz consorte,Quando sente a nocivaTirania infeliz da Parca forte,Já não serve de paz, antes ostentaO dilúvio das lágrimas, que alenta.

XIVA palma celebrada,Que contra o peso fica mais gloriosa,Agora desmaiadaSe vê menos robusta, e vigorosa:Porque ao peso da pena padecidaToda humilde se vê, toda oprimida.

XVO jardim, que floridoEra com Flora, e Zéfiro formoso,Hoje se vê despido,Feio, fúnebre, inculto, deslustroso,Porque por esta morte inopinadaZéfiro triste está, Flora anojada.

XVIA Rosa, que ostentavaA beleza da púrpura olorosa,E sempre se jactavaSer Rainha das flores imperiosa,Como vê desenganos de Rainhas,Não quer mais que nas dores as espinhas.

XVIIO Cravo que exalanteDo belo olor se veste de escarlata,Já não brilha flamante,Quando sente da Morte a fúria ingrata,Antes mostra na cor, sangue vestido,Que do golpe da dor ficou ferido.

XVIIIO jasmim, que a belezaTem na neve animada, que a sustenta,Perdeu a gentileza;Já no frágil candor se desalenta;E tendo a Parca a seta despedido,Alvo ficou da seta amortecido.

XIXSente pois Pedro AugustoPerder o Sol, a flor, o dia claro,Pois tendo sempre adustoEntre chamas de amor o peito caro;Agora vê nas faltas da alegriaPosto o Sol, seca a flor, escuro o dia.

XXSente o culto sagradoDe ũa Rainha Santa o afeto pio,Pois com devoto agradoFazia da humildade o senhorio,Como quem altamente conheciaQue a Púrpura também carcomas cria.

XXISente o Palácio ilustreA saudade da altíssima Princesa,A quem deve seu lustre,E da melhor Política a grandeza,Que sendo Palatina, no amor finoFez do régio Palácio Palatino.

XXIISentem todas as DamasA falta desta Aurora, que assistiam,E como ilustres ramasDo seu favor o orvalho mereciam,E perderam, faltando seus fulgores,De tantas esperanças os verdores.

XXIIISente a casta DonzelaA falta de Isabel, que tanto amavaQuando na idade belaO tálamo ditoso lhe buscava,E se Cupido armava seus enganos,Himeneu casto lhe impedia os danos.

XXIVSente a caterva pobreDa liberal senhora a perda rara,Quando por mão tão nobreTantas vidas da morte restaurara,Vencendo contra as Parcas desabridasO poder, que intentavam sobre as vidas.

XXVSente o Preso os clamores,Que lhe faz padecer a morte brava,Que Isabel com favoresDa Justiça os rigores temperavaConhecendo na espada da justiça,Que era o sumo rigor suma injustiça.

XXVISente enfim todo o povoEsta tristeza atroz, e desumana:Que não é caso novoSentirem todos o que a todos dana;Pois perdeu, quando fica ao desamparo,Todo o bem, toda a glória, todo amparo.Canção, suspende o metro,Que de tanta desdita o triste prantoMe desafina a voz, faz rouco o canto.

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