Sepultação
Vinte e cinco de março
Senti um pontapé desmesurado, elétrico.Uma luz cor de enxofre e uma fumaça azulCircundavam no espaço um personagem tétrico,De cabelos de urtiga e cútis de paul;Olhos como do cal das brancas sepulturasE beiços cor de sangue. Duas dentadurasNegras, pontudas, moles. Faces bem redondasTendo o mexer metódico do pêndulo e das ondas.
"Vamos fazer viagem. Mas só leves alma.Pendura o corpo aí no torno do cabide.Não receies o tempo, o inferno tudo acalma.Eu te meto no bolso. Eia! A hora progride!Deixa que tombe a chuva e que campeie o frio:Nós somos invisíveis. Vamos pelo fio."
E entramos a girar num turbilhão medonho,Ele o Judas tratante, eu o poeta bisonho.Não sei por onde andei, mas em voltando aquiSoube que fui parar no Itacolomi.E era mesmo um monte, alto e muito alto.Sobre um chão pedregoso calçado de alfatoA mesa se assentou. Dos antros da florestaSaíram aos milhões os pares para a festa.Eu vi que todos eles eram almas queComo eu tinham deixado o corpo suspendido.A muitos conheci, mas me ocultei (não vê!).
Andavam como a lesma. E todos como JudasTinham olhos de cal e unhas pontiagudas.Se esparracharam logo em roda à mesa infinda.Serviu-se fel de boi, graxa do Rio-Grande,Doce de escarradeira e mel de sopa finda,E tanta cousa mais... Depois o chefe expandeO peito chocalhento e fala aos conjurados:"Quer sejais fazendeiros, condes, deputados,Ou doutor, ou ladrão, ou monge, ou senador,Ou bravo militar, ou mesmo imperador,Todos sabeis bastante o motivo justíssimoQue nos reúne aqui neste bosque escuríssimo.Igual a nossa causa, incisiva, leônica,Minha linguagem é, espartana, lacônica.Eu digo pois devemos já e já e jáComo as secas torrar o povo do Ceará."
Foi um bater de mão, foi um bater de péE tantos juramentos sagrados, de fé,Que a montanha oscilou, a Serra do Espinhaço,Como quem leva um murro em cima do cachaço.Mas pediu a palavra um tal republicanoExigiu retirar-se o nome de um ciganoDe uma conspiração tão digna de louvor.E declarou que o nome era o de imperador.Judas, porém, loquaz e bem experimentado,Pula em cima da mesa, o punho arregaçado:"Patife, sem-vergonha, vil especuladorQue depois de adular ao teu imperadorVais reforçar o infame republicanismo,Sabe que sem o rei não há escravagismo!!"Então o presidente de toda a assembléiaQuer acalmar a Judas. Judas tem idéiaE sempre acalentou o amor da monarquia.Saímos bruscamente abandonando a orgia.
Eis-me de novo a andar na imensidão horrenda...O raio lá por cima encrusa-se, faz renda,E calorosamente ferve a trovoada.O frio corta o pêlo assim como uma espada.Pervagamos assim turbilhonando à toaE creio até andamos perto de Lisboa.Num momento, porém, nós vimos lacerar-seA nuvem sob nós. E do rasgão celesteNós vimos lá embaixo o mundo, esse disfarce.O mundo estava esguio, esguio tal cipreste.Judas levou a mão ao estúpido bestunto.Pensou. Nós nos soltamos. Rolamos ao chãoViemos embarrar no esquife de um defunto.E Judas foi de ventas dentro do caixão...Caí mais de terror do que de esfalfamentoReconhecendo o horrendo e imundo enterramento.
O cadáver estava ainda não sepulto.Via-se, ao fuzilar, o seu gelado vultoTodo dilacerado e porejando pus,Mas nem um ar de Cristo, nem um ar de cruz...Quanto mais se cavava para ele a covaMais a terra se upava. Esforços inauditos!"Enterre-o na pedra, no azul da corcovaDo velho firmamento. Os animais malditosQue dele façam pasto. Atirai-o no mar.Ou mandem-no meter num tronco secular.Ide-o mergulhar nas águas do Amazonas,Ou ponde-o de conserva em óleo de mamonas.Levai-o para a Itália e num moderno fornoDe boa cremação mande-o esturricarE botai-o então para servir de adornoEm redoma de vidro e ponde-o num altar..."— Cala-te, rei Filipe, já estás amolando!Tu pensas que é no tempo das Espanhas, quandoTu pintavas o diabo e o clero te aplaudia?O clero hoje não faz o que outrora fazia...Tudo que ele aí disse já fizemos, Judas:Tudo fez como a terra. Urge nos acudas!'Ô meu senhor Cão-Coxo, eu já não sou moderno.Por isto penso bem. Guardemos lá no infernoO cadáver precioso — Escravidão Cearense.Que siga em corpo e alma. Ele não nos pertence?"Ninguém o quis por lá! Houve muito barulho"Quase que há muito pau, quase que há sarrabulho."Judas pôs-se a pensar. Por fim pediu um centoDe possantes diabos. Nas ondas do ventoEi-los com o cadáver às voltas. Eu ficoPorque na grande queda arrebentei o bico.
Cá de baixo o Cão-Coxo aplicando a lunetaComo quem observa o rabo de um cometaNum céu sem resplendor, sem curva, sem azul,Entrou a perguntar: "Ó Judas, onde o levas?"Aos áureos conjurados negreiros do sulQue são mui bons Adões e muito boas Evas.Eu deixei-os há pouco em bela contradança,Devem, ter bem disposta a excomungada pança!Que melhor, respondei, demônios brasileiros,Túmulo da Escravidão que o bucho dos negreiros?"
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