Milagre
É nestas noites sossegadas,Em que o luar aponta, e a fina,Móbil e trêmula cortinaRompe das nuvens espalhadas;
Em que no azul espaço, vago,Cindindo o céu, o alado bando,Vai das estrelas caminhandoAves de prata à flor de um lago;
E nestas noites - que, perdida,Louca de amor, minh'alma voaPara teu lado, e te abençoa,Ó minha aurora! ó minha vida!
No horrendo pântano profundoEm que vivemos, és o cisneQue o cruza, sem que a alvura tisneDa asa no limo infecto e imundo.
Anjo exilado das risonhasRegiões sagradas das alturas,Que passas puro, entre as impurasHumanas cóleras medonhas!
Estrela de ouro calma e bela,Que, abrindo a lúcida pupila,Brilhas assim clara e tranqüilaNas torvas nuvens da procela!
Raio de sol dourando a esferaEntre as neblinas deste inverno,E nas regiões do gelo eternoFazendo rir a primavera!
Lírio de pétalas formosas,Erguendo à luz o níveo seio,Entre estes cardos, e no meioDestas eufórbias venenosas!
Oásis verde no deserto!Pássaro voando descuidadoPor sobre um solo ensangüentadoE de cadáveres coberto!
Eu que homem sou, eu que a misériaDos homens tenho, - eu, verme obscuro,Amei-te, flor! e, lodo impuro,Tentei roubar-te a luz sidérea...
Vaidade insana! Amar ao diaA treva horrenda que negreja!Pedir a serpe, que rasteja,Amor à nuvem fugidia!
Insano amor! vaidade insana!Unir num beijo o aroma à peste!Vazar, num jorro, a luz celesteNa escuridão da noite humana!
Mas, ah! quiseste a ponta da asa,Da pluma trêmula de neveDescer a mim, roçar de leveA superfície desta vasa...
E tanto pôde essa piedade,E tanto pôde o amor, que o lodoAgora é céu, é flores todo,E a noite escura é claridade!
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