Tenho Frio e ardo em Febre!

E tremo a mezza state,ardendo inverno.(PETRARCA.)

Tenho frio e ardo em febre!O amor me acalma e endouda! o amor me eleva e abate!Quem há que os laços, que me prendem, quebre?Que singular, que desigual combate!

Não sei que ervada frechaMão certeira e falaz me cravou com tal jeito,Que, sem que eu a sentisse, a estreita brechaAbriu, por onde o amor entrou meu peito.

O amor me entrou tão cautoO incauto coração, que eu nem cuidei que estava,Ao recebê-lo, recebendo o arautoDesta loucura desvairada e brava.

Entrou. E, apenas dentro,Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno...E hoje... ai! de mim, que dentro em mim concentroDores e gostos num lutar eterno!

O amor, Senhora, vede:Prendeu-me. Em vão me estorço, e me debato, e grito;Em vão me agito na apertada rede...Mais me embaraço quanto mais me agito!

Falta-me o senso: a esmo,Como um cego, a tatear, busco nem sei que porto:E ando tão diferente de mim mesmo,Que nem sei se estou vivo ou se estou morto.

Sei que entre as nuvens pairaMinha fronte, e meus pés andam pisando a terra;Sei que tudo me alegra e me desvaira,E a paz desfruto, suportando a guerra.

E assim peno e assim vivo:Que diverso querer! que diversa vontade!Se estou livre, desejo estar cativo;Se cativo, desejo a liberdade!

E assim vivo, e assim peno;Tenho a boca a sorrir e os olhos cheios de água:E acho o néctar num cálix de veneno,A chorar de prazer e a rir de mágoa.

Infinda mágoa! infindoPrazer! pranto gostoso e sorrisos convulsos!Ah! como dói assim viver, sentindoAsas nos ombros e grilhões nos pulsos!

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