Varias Poesias
Pacheco. Souſa. Magalhaẽs.
Rocha. Castilho.
TRaslado daquelle intento,Que temerario ſe atreueComprender em termo breueQuanto alcança hum penſamento,Seguindo o entendimentoOs longes que diſto alcançaEm voſſa Esfera deſcança;Donde abſorto em floria tantaVè que a fama vos leuantaSobre a mayor eſperança.
TAõ altamente, ò Paulo engenho, & arte,No acento teu gentil ſe remontaraõ,Que nenhum termo grande me deixarão,Paraque a ti ſem ti poſſa louuarte.
A imitar deſſe pletro a menor parteDeſejos de aplaudirte me inflamarão,E de o não conſeguir ſe deſculparaõCom que era competirte ou imitarte.
Tu ſó te louua a ti que para tantoLicenciandote eſtão noſſas enuejas,Que elogios te hão de ſer mais numeroſos.
Logra por gloria em noſſo mudo eſpanto,Que quando culpa de enuejoſos ſejas,Seràs diſculpa vfana de enuejoſos.
EStilo, erudição, engenho, & arte.Tanto nos verſos teus ſe remontarão,Que admiraçoẽs ſòmente me deixaraõ,E ſómente capaces de louuarte.
Mas ſe do altino eſprito a melhor parte,Que enuejas ſoberanas me inflamaraõEm vão ſe atreue; bem na diſculparãoDeſejos impoſſiueis de imitarte.
Offendes com o louuor, pois podes tanto,Que originando em mi nouas enuejas,Me confundes com verſos numeroſos.
Feliz offenſa pois, & não me eſpantoQue quando offenſa do que louuas ſejas,Ache atè nas offenſas enuejoſos.
DItoſas flores, que na altiua esfera,Donde viue glorioſa a FermoſuraPola mão colocadas da ventura,Logrando, eſtais, eterna primauera,
Neſsa que grauemente reuerberaDiuina esfera, bellamente eſcura,Luzes fereis de Amor, com que affigura,Quem das glorias que buſca deſeſpera.
Gloria ſereis da terra, em que nacidas,Foſtes em feliz forte, para eſtrellas,No ceo, donde Amor viue, introduzidas,
E ſe Amor vos elege por mais bellas.Serão da altiua esfera deſpedidasRayos de Amor as flores amarellas.
POr ter a monarchia mais figura,Que ſobolas vontades adquiria,Fazendo belicoſa a monarchia,Fez Lizis varonil a fermoſura.
Tanto no trajo alheo ſe affigura,Que em varonil aſpeito, parecia,Feroz, a quem por bella obedecia,Bella a quem por feroz fugir procura.
De diferentes armas adornada,Em diferentes habitos reparte,Trofeos aos olhos, & trofeos à eſpada;
Em ſeu fauor, por natureza, & arteGrato fez o rigor, a graça armadaArmando a Amor, & deſarmando a Marte.
PIntada voz, hahitador do vento,Muſica flor, eſpiritu canoro,Que exprimes, brando, no volatil coroDas aues todas o milhor acento,
Ditoſo tu, que do rigor izento,Que dentro n’alma finto, e n’alma choro,Colhes da boca de rubi, que adoro.Cò o bico de criſtal o doce alento.
Se obedecendo a teu ſonoro encanto,O premio de ofreceo, que me deuia,Canta meu mal, ou preſtame teu canto:
O canto alcance, o que chorar pedia,E pois a pena nunqua pode tanto,Co as armas vencerei da melodia.
Ao ouro.
VII.
I.
LOuro metal, que la do centro eſcuroDa terra que no centro te eſcondiaSaiſte a ver o dia,Por mãos do ferro, mais que o ferro duro,E mais que o ferro artifice de guerra,Tiraniſando a terraSoberbo foſte, bradamente forte,Adquirindo o poder da propria morte.
II.
Indigno foy de nome generoſoQuem penetrando abòbadas eſcuras,Vio das entrañas duras,Da terra, anatomiſta riguroſo.Os reconcauos intimos, adondePuſta, a terra te eſconde,Pois, crendo que a teu jugo ſe redime,Entre grilhoens de marmore te oprime.
EM ſeu rigor, piedoſamente eſquiua,Quanto ao trato comum te dificultaNo centro em que te ocultaEm carceres te poem de penha viua;Auara conſeruando deſte modoA paz do mundo todo,Porque ſoberbo em diligencias tantas,Com os Imperios do mundo te leuantas.
IIII.
Com preſunção de intrepido & de altino,A effeito trouxe, de ſeu proprio dano,Atreuimento humanoDo luminoſo ardor, ardor nociuo;Porem mais temerario atreuimento,Por impulſo violento,Te fou buſcar, em deſtruição do mundo,Palida furia, ao Baratro profundo.
A Violencia trouxeſte, a fraude impia,Perturbadoras de ſoſſego humano;E diſculpando o engano,Fizeſte ley da propria tirania,O trato fiel, o inexpugnauel muroHe por ti mal figuro,Pois figurada em vão, deixa rendida,Danae a honra, & Polidoro a vida.
VI.
Tu deſte alentos ao primeiro pinho,Para que, arando o campo nunqua enxuto,Largaſſe, reſoluto,Azas aovento de delgado linho;Tu quebrantaſte a paz ao mar ſagrado;E enganando o cudado,Porque eſqueça o perigo com a memoria,Dêſte ao perigo titulos de gloria.
TV ſó, por inſolente reſpeitadoAo vulgo, ſuperior dos metais todos,Cobras por varios modosLugar ſobola ſorte colocado;E em virtude da propria formoſura,Andas ſobre a ventura,Aclamado do mundo não ſómenteRey dos metais, mas Idolo da gente.
AO ILLVSTRISSIMOſenhor Dom Affonſo Furtado deMendoça Arcebiſpo de Liſboa,& gouernador dos Reynosde Portugal.
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O Vòs da Luſitana monarchia(cõ o peſo ſeu caduca, & bacilãte)Vnica gloria, & ſingular colunaDe cujos ombros o reparo fia,Contra os irados impitus baſtante,Tanta vez repetido da fortuna;Iuſtamente repugna,Auenturarſe a pena, juſtamente,Acreditando o proprio deſatino,Quando ſubir intenteHumana pena a merito diuino,Porem, calificando o detrimento,Do perigo fará merecimento,Quando de tanta luz precipitada,No deſcredito fique acreditada.
A Admiração que fala mudamente,Lingua immortal, da verdadeira fama,Chegue, donde não chega humano alentoE em confuſas rezoens ſẽpre eloquente,Nas vozes miſterioſas, que derrama,Sò capazes dum grão merecimento,Ao mundo todo, atentoA voſsas obras, voſſas obras diga,Que a atenção, que futil as conſidera,Poſto que tanto as ſiga,Tanto de comprehendellas deſeſpera,Que porque eterno voſso nome fiqueO encomenda ao ſilencio, que o publique,Que rethoricamente, bem que mudo,Fala o ſilencio, quando cala tudo.
CLaro Mendoça, que do tronco claroDe tanto Heroes, ramo produzido,Feliz compendio ſois de ſeus valores;Do tronco digo, que em prodigio raro,Heroes daua por fruto eſclarecido,Trofeos por folhas, & valor por flores;De illuſtres anterioresToda a virtude em vos recopilada,Arrimo ſois, em cuja figurançaA Patria fatigadaDe ſobreſaltos tremulos deſcança;Ià ſobre toda a terra dilatado,Sois dos limites della reſpeitado,Tudo cubris de ſombra, & voſsa ſombraAmpara a Patria, como o mũdo aſsombra.
AS heroicas virtudes, de que ornandoObras glorioſas, dais a illuſtre effeitoNobre reſoluçoens, que o peito cria,Generoſos indicios eſtão dãdoDeſse que reuervera em voſso peitoEſprito claro que vos rege, & guiaAſſi o autor do dia.No reſplandor, que prouido reparte,Nos influxos, que feliz comunicaIgual em toda a parte,Superior calidade juſtifica;E aſſi, por ſeus effeitos conhecidosArgumentado he, não comprehendido,Na ordem delles, no gouerno dellas,O grão Motor dos ceos, & das eſtrellas.
DE ſacras letras, de valor ornado,O claro entendimento, o peito forte(Diferença que em vòs ſò vejo vnida)As immortalidades conſagrado,Duas vezes liure do poder da morte,Cobrais duas vezes immortal a vida,Sem que o ſoſsego impidaOs impulſos do peito generoſo,A hum meſmo tẽpo belico, & prudente,Prudente, & belicoſo,Letras, & armas vſando juntamente,Fizeſtes, por valor, ſe não por arte,A Apolo valeroſo, & dou to a Marte,Quanto na alta o caſião, que vos abna,Veſtio Minerua as armas de Belona.
VOſſa prudencia juſtamente elegem,Dos dous Imperios alta inteligencia,Heſpanha & Roma, cada qual prudente.E das glorioſas machinas que regem,Tomando parte em ſi voſſa prudencia,Deſcança cada qual glorioſamente.Ao trabalho aſſiſtenteDo Cetro Real, do Paſtoral cajado,Aos magiſterios ambos vigilante,Alternando o coidado,Sois dambas as Esferas nouo Atlante,E exercitando miſtico o gouerno,Tanto no temporal, como no eterno,Do ſacro Peſcador, do grão Monarcha,Dũ gouernais o Imperio,& doutro a Barca
ESte imperio, Senhor, que dilatado,Os berços, & o ſepulcro, vè do dia,Remotos fins da fabrica do mundo;A vida deue a quem no campo armadoVida lhe deu com o ſangue, que vertia,Primeiro Affonſo, & Marte não ſegundosIà com ſaber profundo,Quãdo cõ ſangue não, nas mãos da morte,Outro Affonſo lhe dà ſegunda vida,Quando ao ridor da forteA calidade intrepida abatida,O brio natural, de que ſe armauaA vontade dos fados inclinaua;D’alto poder effeito conueniente,Que ſe hũ Affonſo o fũdou, q̇ outro o ſuſtete.
IA por voſsos diſcurſos defendidaA Patria nhum ſò muro mais ſigura,Alentos cobra nouamente agora;Porque, em diſtintos membros diuidida,Os horrores do Heſpero figuraE figura os crepuſculos da Aurora;Que de tudo ſenhora,Cò o vigor que lhe dais alenta tudo.E vos para outras obras deſtinado,Bem que felice eſcudoDo Reyno ſeis por eleição do fado.Parece, que vos vejo transformadaA veſte roxa em Purpora ſagrada,E que vos guardão jà decretos grauesDos Erarios de Pedro as ſacras Chaues.
IMmortal ſempre nas memorias ande,Quanto humedece o mar, o Sol inflama,Voſſo nome em ſi meſmo colocado,E vos mayor, que voſſo nome grande,Dando nouos eſpiritus á fama,Sede por voſſo nome eterniſado;E poſto que enuejado,Para que eterna voſſa gloria ſeja,Entre os meſmos perigos mais figura,A admire a propria enueja,A eſtableça beneuola a ventura,E ſempre fauſto ireis, & ſempre Auguſto,Do merito ſubindo ao premio juſto,Eterniſado contra a morte impia,Adonde nace, & donde morre o dia.
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